19 maio 2006

Virtudes de minha mãe

Aurélio Agostinho descrevendo as virtudes de sua mãe, demonstra tanto a admiração filial, como instrui os seus leitores como uma esposa e mãe cristã deve proceder. É possível aproveitarmos algumas de suas sugestões. É interessante notar como Agostinho atribui todas as virtudes de sua mãe como sendo resultado da graça de Deus. Ele registrou no livro Confissões (398-399 d.C.) que "desse modo, educada no pudor e na sobriedade, e submissa por ti a seus pais, mais que por seus pais a ti, quando chegou à idade de casar-se, foi dada a um marido, a quem serviu como senhor. Procurava conquistá-lo para ti, falando-lhe de ti através das virtudes, com as quais tu a tornava bela e pelas quais o marido a respeitava, amava e admirava. Suportou infidelidades conjugais, sem jamais hostilizar, demonstrar ressentimento contra o marido por isso. Esperava que tua misericórdia descesse sobre ele, para que tivesse fé em ti e se tornasse casto. Embora de coração afetuoso, ele se encolarizava facilmente. Minha mãe havia aprendido a não o contrariar com atos e palavras, quando o via irado. Depois que ele se refazia e acalmava, ela procurava o momento oportuno para mostrar-lhe como se tinha irritado sem refletir. Muitas senhoras, embora casadas com homens mais mansos, traziam sinais de pancadas que lhes desfiguravam o rosto e, nas conversas entre amigas, deploravam o comportamento dos maridos. Minha mãe, pelo contrário, ainda que com ar de brincadeira, lhes reprovava as conversas, lembrando-lhes que o contrato lido no casamento devia ser considerado como o documento da própria submissão, não tendo elas condição de assumirem atitudes de soberba contra seus senhores. Conhecendo o tipo de marido colérico que minha mãe suportava, muito se admiravam por nunca se ouvir dizer ou se revelar, por algum indício, que Patrício tivesse batido na mulher, nem algum dia tivessem brigado em casa. As amigas perguntavam-lhe confidencialmente a razão disso, e ela explicava-lhes o comportamento que acabo de descrever. Algumas então adotavam o mesmo sistema e congratulavam-se por havê-lo experimentado. Aquelas que não o observavam continuavam a sofrer violências.

A princípio, a sogra irritava-se contra ela, devido aos mexericos de servas intrigantes; mas foi também conquistada pelo respeito e pela perseverança na paciência e na doçura, de tal modo que ela própria quis denunciar ao filho, pedindo que fossem punidas as línguas malévolas que se interpunham entre ela e a nora, perturbando a paz familiar.

(...)

Concedeste ainda, 'ó meu Deus e minha misericórdia' (Sl 58:18), um dia, um grande dom àquela tua fiel serva, em cujo seio me criaste. Sempre que havia discórdia entre pessoas, ela procurava, quando possível, mostrar-se conciliadora, a ponto de nada referir de uma a outra, senão o que podia levá-las a se reconciliarem. E isso fazia, depois de ter ouvido de um lado, as queixas amargas que costumam surgir nos casos de forte antipatia, quando o rancor provoca as mais ásperas acusações contra as amigas ausentes. Esse dom me pareceria de pouca importância, se uma triste experiência não me houvesse mostrado que grande número de pessoas - não sei qual horrendo e muito difundido contágio do pecado - não só repetem a pessoas inimigas o que umas dizem das outras, sob o mais foram pronunciadas. Para uma pessoa realmente humana, não será suficiente limitar-se a não provocar ou aumentar as inimizades, com ditos malévolos, mas também procurar extingui-las com boas palavras.

Assim era minha mãe, graças às lições que tu, seu mestre espiritual, lhe ensinaste. E ao final, nos últimos anos de vida do marido, ela o conquistou para ti. Depois da conversão deste, ela não precisou mais lamentar os ultrajes que antes sofria.

Minha mãe era a serva de todos os teus servos. Todos os que a conheciam louvavam, honravam e amavam profundamente a ti, por nela sentirem a tua presença, comprovada pelos frutos de uma vida santa. Tinha sido esposa de um só marido, tinha cumprido seu dever para com os pais, tinha governado a casa com dedicação e dado o testemunho das boas obras. Educara os filhos, gerando-os de novo tantas vezes quantas os visse afastarem-se de ti. Enfim, ainda antes de adormecer para sempre no Senhor, quando já vivíamos em comunidade depois de ter recebido a graça do batismo - já que por tua bondade, ó Senhor, como se nos tivesse gerado a todos, servindo a todos nós, como se fosse filha de cada um."

Extraído de Confissões IX.9, Editora Paulus, 1997, pp. 252-254.

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