30 março 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 5

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 5 - Você consegue obedecer, perfeitamente, esta lei?
R. Não, não posso(1), porque por natureza sou inclinado a odiar a Deus e a meu próximo(2).
(1) Rm 3.10,20,23; 1Jo 1.8,10 (2) Gn 6.5; Gn 8.21; Jr 17.9; Rm 7.23; Rm 8.7; Ef 2.3; Tt 3.3.

Somos incapazes de obedecer perfeitamente a lei de Deus por causa do pecado original. A doutrina do pecado original indica duas situações para a origem do pecado: primeiro a origem histórica e, segundo, a fonte existencial do mal moral. Paulo declara que “da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” (Romanos 5:12). Aqui o apóstolo declara a origem histórica e individual do pecado de todos os homens.

Vejamos primeiro o aspecto histórico do pecado original. Adão deixou aos seus descendentes o pecado como herança. Ele era o representante da raça humana no pacto que Deus firmou com ele no jardim do Éden. Ao desobedecer a lei de Deus, ele escolheu morrer, e trouxe sobre si a merecida condenação de Deus. Ele recebeu a maldição do pecado, e todos nós caímos com ele e, por isso, nascemos prostrados debaixo do fardo do pecado.

Entendamos o pecado original como experiência individual. Todas as pessoas são membros da raça humana que descende de Adão. A cada nascimento o pecado polui o indivíduo. Existir é um privilégio, mas atrelado a isto segue a herança do mal moral em cada um de nós. Recebemos a transmissão do pecado ao sermos concebidos no ventre da nossa mãe (Sl 51.5).

Não nascemos moralmente neutros, nem aprendemos a pecar só quando crescemos. Pelo contrário, o pecado é transmitido na concepção, e nos tornamos pecadores desde o primeiro momento de nossa existência. Conforme crescemos e amadurecemos, apenas refinamos os nossos pecados. Quando crianças pecamos de forma grosseira, mas conforme crescemos, aprendemos a dissimular, e nossos pecados tornam-se mais sofisticados. Aprendemos a esconder os reais motivos, cuidamos de limpar a sujeira pública do pecado e escondemos o quanto possível o dano do pecado, a fim de cobrirmos a nossa vergonha com folhas de figueiras e nos escondermos do juízo de Deus (Gn 3.7-8).

O pecado original em nosso coração é o nascedouro de todos os impulsos pecaminosos. Os nossos pensamentos, vontades e emoções fluem poluídos, porque a fonte de onde eles surgem está totalmente contaminada pelo mal moral. O Senhor Jesus disse que “as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que tornam o homem ‘impuro’. Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (Mt 15.18-19). O meio em que convivemos incentivam o pecado, por isso, os maus exemplos, a má educação, o ambiente hostil e imoral, a cultura lasciva, etc, somente são terreno fértil para que o nosso pecado seja estimulado. Todavia, a Escritura Sagrada informa e nossa experiência confirma que o pecado flui do nosso coração. E, com o nosso pecado, recebe-se toda a maldição herdada do nosso primeiro pai, mas a sentença de morte, a cada um, é dada por causa de seus próprios pecados.

21 março 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 4

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 4. O que a lei de Deus exige de nós?
R. Isto Cristo nos ensina num resumo, em Mt 22.37-40: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento.” Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Lv 19:18; Dt 6:5; Mc 12:30,31; Lc 10:27).

Toda lei moral se resume nos Dez Mandamentos. O catecismo indica o ensino de Cristo quando questionado por um fariseu sobre qual seria o maior mandamento da lei. O Senhor Jesus ainda concluiu que “destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22.40). O decálogo se divide em 2 partes: o amor à Deus [do 1º ao 4º mandamento] e o amor ao próximo [do 5º ao 10º mandamento]. Amar, segundo Deus ordena, é o que valida tudo o que fazemos. Sabemos que “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17). Assim, toda a Escritura nos esclarece quais atitudes Deus requer para agradá-lo e, também, termos harmonia no convívio com outras pessoas.

Paulo declara a Timóteo que “sabemos que a lei é boa, se alguém a usa de maneira adequada” (1Tm 1.8). Sim, a lei é boa mesmo quando acusa a minha desobediência. Paulo disse que “De fato a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom”, e que, apesar de “não faço o que desejo, mas o que odeio. E, se faço o que não desejo, admito que a lei é boa” (Rm 7.12, 15-16). O problema não está na lei, está em mim, porque a lei é perfeita e eu sou pecador. Deus exige ser amado, e ordena que amemos uns aos outros, todavia, o meu impulso pecaminoso aguça em mim rebeldia contra Deus e inimizade contra o próximo. Temos diante de nós o dever, mas a nossa inclinação pecaminosa nos faz falhar. Sinceramente eu desejo amar a Deus acima de tudo e todos, e ao próximo como a mim mesmo, mas infelizmente, não é isso que consigo cumprir.

O amor é cumprimento da lei. Paulo instrui que “não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros, pois aquele que ama seu próximo tem cumprido a lei. Pois estes mandamentos: ‘não adulterarás’, ‘não matarás’, ‘não furtarás’, ‘não cobiçarás’, e qualquer outro mandamento, todos se resumem neste preceito: ‘ame o seu próximo como a si mesmo’. O amor não pratica o mal contra o próximo. Portanto, o amor é o cumprimento da lei” (Rm 13:8-10).

É impossível obedecermos perfeitamente a lei de Deus. Tiago declara que “quem obedece a toda a Lei, mas tropeça em apenas um ponto, torna-se culpado de quebrá-la inteiramente” (Tg 2.10). Ninguém consegue obedecer a lei nem mesmo em seu significado básico, muito menos em seu significado pleno. Transgredimos a lei de Deus pecando por intenção, omitindo o nosso dever, distorcendo o propósito de nossa vida e funções, poluindo e corrompendo nossos relacionamentos, pervertendo as virtudes e desobedecendo individual ou coletivamente a vontade de Deus. A conclusão que temos é de que “ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado” (Rm 3.20). A boa notícia [evangelho] é que Deus exige arrependimento, confiança em sua promessa de perdão e retomarmos o propósito de amá-lo e ao próximo como nós mesmos.

14 março 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 3

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 3. Como você conhece sua miséria?
R. Pela lei de Deus. (Rm 3:20)

A lei divina é parte da Palavra de Deus. A Escritura Sagrada se divide literariamente em Antigo e Novo Testamento; embora, também, possa ser estruturada historicamente em antigo e novo pacto; mas, em sua natureza revelada Palavra de Deus ela é lei e evangelho. Por isso, desde Gênesis até Apocalipse, toda a Bíblia contém intrinsicamente, tanto lei como evangelho. É errôneo pensar que o AT é somente lei, enquanto o NT é somente evangelho, pois vemos em ambos os testamentos, tanto a lei como a presença do evangelho, e ambos os elementos formam a Palavra de Deus.

A lei de Deus é didaticamente classificada em civil, cerimonial e moral. O uso “civil” da lei existiu para orientar Israel, como antigo povo da aliança, e cessou quando eles deixaram de ser uma nação autônoma. O uso “cerimonial” da lei teve a finalidade de apontar para Cristo (Rm 10.4). Assim, Cristo obedeceu, perfeitamente, todas as exigências da lei, inclusive o seu cerimonialismo, e a satisfez completamente. Ele foi “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29) e Deus revela com a sua morte a gravidade dos nossos pecados, bem como o poder da sua expiação para nos perdoar de toda a iniquidade e impureza. Mas a lei tem o uso e é essencialmente moral. O seu sumário está nos Dez Mandamentos e têm uso perpétuo para todos os homens, e em especial, para a ética cristã. Eles revelam o modo perfeito como Deus requer que os seus filhos vivam diante dele.

A lei de Deus revela três verdades básicas: 1. Quem Ele é; 2. O perfeito relacionamento de obediência que Ele requer de nós; 3. A nossa incapacidade de produzir virtude e justiça. A absoluta perfeição de Deus contrasta com a nossa horrenda pecaminosidade e absoluta incapacidade de vivermos a santidade, pois, até em nossas virtudes, boas obras e justiça somos essencialmente poluídos pelo pecado. Sem a lei de Deus não temos um princípio norteador para o que é certo ou errado. A ausência da lei resulta em relativismo moral. Mas ainda que conheçamos a lei, carecemos que Deus nos ilumine, converta, convença e capacite a obedecê-la com a motivação amorosa, de acordo com o seu significado revelado, e com o objetivo de glorifica-lo.

A lei de Deus é parte do Pacto das Obras. Este pacto foi firmado com os nossos primeiros pais, Adão e Eva, antes da queda no pecado. Eles deveriam obedecer a vontade de Deus em sua ordenança de cultivar, dominar e povoar a terra, mas também de não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Eles eram equipados com capacidades morais para cumprir perfeitamente. Entretanto, ao desobedecer, trouxeram a maldição e a transmissão do pecado para toda a sua descendência. A mesma lei que daria mérito para que pudessem comer, posteriormente, da árvore da vida, agora traz a merecida condenação da desobediência e rebeldia.

A condenação é declarada com base na desobediência da lei de Deus. Sabemos que “o pecado é a transgressão da lei” (1Jo 3.4) e que "o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). Essa conduta rebelde em relação à lei de Deus é resultado da presença do poder do pecado em nós. As ordenanças de Deus revelam o quanto, por natureza, somos ímpios, porque rejeitamos a santidade em nosso coração. A santificação testifica que somos filhos de Deus. Esta é a postura dos herdeiros da aliança em confiar e obedecer a Palavra de Deus. A lei revela a nossa a nossa miséria, denuncia a gravidade da nossa ofensa e sentencia a condenação. Mas ela está de mãos dadas com o evangelho quando aponta para Cristo como o nosso substituto pactual, o Cordeiro que morreu em nosso lugar, e satisfez a lei, Ele sofreu a nossa miséria, a fim de, graciosamente nos dar a comunhão da vida eterna.

06 março 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 2

Catecismo de Heidelberg - Pergunta 2. O que você deve saber para viver e morrer neste fundamento?
R. Primeiro: como são grandes meus pecados e minha miséria.(1) Segundo: como sou salvo de meus pecados e de minha miséria.(2) Terceiro: como devo ser grato a Deus por tal salvação.(3) [(1) Mt 9.12; Jo 9.41; Rm 3.10; 1Jo 1.9-10. (2) Lc 24.46-47; Jo 17.3; At 4.12; At 10.43; 1Co 6.11; Tt 3.3-7. (3) Sl 50.14,15; Sl 116.12,13; Mt 5.16; Rm 6.12,13; Ef 5.10; 2Tm 2.15; 1Pe 2.9,12. Veja também Mt 11.28-30; Ef 5.8].

O que devo saber para viver e morrer para glória de Deus? A sabedoria do Catecismo de Heidelberg resume em três principais verdades: pecado, salvação e gratidão. Qual é a sua motivação de estudo e trabalho? Jesus adverte que “cuidado! Fiquem de sobreaviso contra todo tipo de ganância; a vida de um homem não consiste na quantidade dos seus bens” (Lc 12.15). As pessoas dedicam parte da vida estudando para profissionalizar, porque, infelizmente, veem o saber apenas como um meio de ganhar dinheiro. O conhecimento deve ter um propósito excelente. O que torna alguém melhor não é o que ele tem, mas o que ele é e como se relaciona com Deus e as pessoas.

Como são grandes meus pecados e minha miséria? Todas as minhas capacidades intelectuais, volitivas e emocionais estão moralmente corrompidas pelo pecado. Sou incapaz de amar a Deus como Ele merece e incompetente para obedecê-lo perfeitamente como Ele exige. Nasci espiritualmente morto, moralmente falido e, por natureza, filho da ira. Posso acusar outros pelos meus erros, mas a minha desobediência não pode ser negada, nem cancelada a minha culpa transferindo-a para outras pessoas. O meu pecado produz alienação, insensatez, inimizade, culpa, vergonha, condenação e morte.

Como sou salvo dos meus pecados e da minha miséria? As minhas “boas” obras não merecem salvação, porque sou incapaz de produzir perfeita virtude. As minhas virtudes estão contaminadas pela poluição do pecado e, por isso, não consigo obedecer a lei de Deus. Ao transgredir a lei não consigo sequer me arrepender como Deus ordena. A religião, a tradição, a cultura, a tecnologia e a educação não pode me dar salvação. Jesus é o único caminho, a verdade e a vida, ninguém pode ir ao Pai, senão por Ele (Jo 14.6). Somente Cristo mereceu a aceitação do Pai, pela sua perfeita obediência, porque só o Filho de Deus produziu suficiente justiça. Ele recebeu sobre si a minha condenação para me dar o perdão dos meus pecados e a vida eterna. Sou salvo pela graça, por meio da fé, em Cristo Jesus.

Como devo ser grato a Deus por tal salvação? Toda a minha vida deve glorificar a Deus, todavia, sou incapaz de louvá-lo como Ele merece. Cristo está no céu e intercede por mim, fazendo a minha obediência, adoração e serviço aceitáveis pela sua justificação diante do Pai. Eu obedeço porque fui graciosamente adotado, e não para merecer me tornar um filho de Deus. O verdadeiro amor de um filho é evidenciado pela sincera obediência (Jo 14.15). Deus ordena que o adore, mas isso só é possível, por meio do conhecimento revelado no Filho e da santificação que o Espírito Santo produz em mim. O fim principal da minha vida é glorificar e satisfazer-me na vontade de Deus.