30 maio 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 11

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 11. Mas Deus não é também misericordioso?
R. Deus na verdade é misericordioso(1), mas também e justo (2). Por isso, sua justiça exige que o pecado, cometido contra a suprema majestade de Deus, seja castigado também com a pena máxima, quer dizer, com o castigo eterno em corpo e alma [Êx 20.6; Êx 34.6,7; Êx 20.5; Êx 23.7; Êx 34.7; Sl 7.9; Na 1.2-3; 2Ts 1.9].

As pessoas querem viver no pecado, indiferentes à vontade de Deus, sem colher as consequências de suas decisões. Quando são lembradas de que haverá um juízo final, e que prestarão contas de tudo o que viveram, elas contestam que Deus é misericordioso. Elas recorrem ao amor de Deus sem nenhum arrependimento, sem crerem na redenção de Cristo, e sem clamarem pelo seu perdão. Deus é gracioso com aqueles que buscam a sua misericórdia com contrição, e se arrependem verdadeiramente dos seus pecados.

Devemos lembrar que o pecado é um problema legal e moral. Ele é um problema legal porque é a transgressão da lei de Deus. É desobediência, rebeldia e iniquidade, de modo que, todos merecidamente são sentenciados à pena de morte. A desobediência da lei moral exige justa punição. Mas o pecado também é um problema moral. Ele é moral porque envolve os motivos do coração pervertendo, deformando, corrompendo, indispondo e poluindo tudo em nós contra Deus. Por isso, “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça” (1Jo 1.9).

A justiça exige punição quando não há arrependimento verdadeiro. Quando nos endurecemos em nossos pecados e desprezamos a misericórdia de Deus, corremos grande perigo! O autor da epístola aos Hebreus nos adverte que “não haja nenhum imoral ou profano, como Esaú, que por uma única refeição vendeu os seus direitos de herança como filho mais velho. Como vocês sabem, posteriormente, quando quis herdar a bênção, foi rejeitado; e não teve como alterar a sua decisão, embora buscasse a bênção com lágrimas” (Hb 12.16-17).

Não podemos confundir remorso com arrependimento, porque são disposições morais diferentes. O arrependimento reconhece a desobediência da lei moral, sabe que ofendeu a santidade de Deus, e que merece a punição sentenciada pela Palavra de Deus, e é tomado pela tristeza de pecar contra o Senhor (Sl 32 e 51; Dn 9.1-19). O arrependido sabe que a graça o limpará da imundícia do pecado, e que não há mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1). O temor do Senhor produz arrependimento.

O remorso, entretanto, não é assim. Embora seja um sentimento acompanhado de tristeza e vergonha, ele não está convencido de ter ofendido ao Senhor. A angústia do remorso é movida pela vergonha da sua imoralidade que se tornou pública. Ele está envergonhado pois a sua reputação se manchou, e o seu nome é criticado, zombado e desmoralizado. Por isso, Paulo afirma que “a tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte” (2 Co 7.9). O remorso é a dor causada pelo golpe do próprio pecado no seu orgulho. É chorar o prejuízo que sofreu, e os benefícios que perdeu. Os arrependidos buscam a Deus, enquanto pessoas angustiadas pelo remorso podem, até mesmo, cometer suicídio. O temor dos homens produz remorso.

A Bíblia fala que há céu e inferno. Estes dois termos se referem à condição e ao lugar onde estão as almas após a morte. É uma condição porque o céu é uma graciosa relação de comunhão, por meio de Cristo, com Deus. Nesse sentido, o céu começa aqui, num vínculo de já e ainda-não (Fp 3.1-4). Mas o céu também é o lugar aonde as almas dos eleitos vão após morrerem. Eles estão com o Senhor, conscientes, adorando, sendo consolados, e esperando a consumação de todas as coisas (Ap 6.9-11).

O inferno também é uma condição e um local. Ele é uma condição, porque é a contínua ira de Deus sobre os ímpios (Jo 3.36), e é um lugar porque é para lá que as almas deles vão quando falecem sem Cristo. O inferno foi criado por Deus para guardar provisoriamente as almas daqueles que receberão maior juízo no grande e terrível Dia do Senhor. Naquele dia não será o momento para se descobrir se será salvo, ou não (Jo 3.17-19); mas, o juízo final será para sentenciar quanto ao galardão, ou a intensidade de maiores sofrimentos, conforme as obras de cada um (Rm 2.5-10). Atualmente, no inferno, o juízo é parcial, porque a ira de Deus se manifesta apenas contra a alma, mas no último dia a punição será completa, porque será contra o corpo e alma daqueles que se rebelaram contra Deus (Ap 20.11-15). Qual será o seu julgamento?

15 maio 2019

SPIRITUS SANCTUS

Ó Espírito Santo,
Como o sol é pleno de luz,
o oceano abundante de água,
O céu repleto de glória,
assim meu coração seja cheio de Ti.
Inúteis são todos propósitos divinos do amor
e a redenção consumada por Jesus
a não ser, se Tu operas internamente,
regenerando pelo teu poder,
dando-me olhos para ver Jesus
mostrando-me as realidades do mundo invisível.
Dá-me a Ti mesmo sem medida
como uma fonte intocada,
como riquezas inesgotáveis.
Eu lamento minha frieza, pobreza, vazio,
visão imperfeita, culto desanimado,
orações vazias, louvor sem valor.
Sofro por não me afligir ou resistir a Ti.
Venha como poder,
para expulsar toda rebelde luxúria, para reinar supremo e manter-me Teu;
Venha como mestre,
conduzindo-me à toda a verdade, enchendo-me de todo entendimento;
Venha como amor
para que eu possa adorar o Pai e amá-lo com tudo o que tenho;
Vem como alegria,
habitar em mim, mover-se em mim, animar-me;
Venha como luz
iluminando as Escrituras, moldando-me em Tuas leis;
Vem como santificador
corpo, alma e espírito são totalmente Teus;
Venha como auxiliador,
com poder para abençoar e manter, direcionando todos os meus passos;
Vem como embelezador,
trazendo ordem a partir da confusão, amabilidade do caos.
Engrandeça-me na Tua glória, magnificando-se em mim
e me faça sentir a Tua fragrância.

11 maio 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 10

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 10. Deus deixa sem castigo esta desobediência e rebeldia?
R. Não, não deixa, porque Ele se ira terrivelmente tanto contra os pecados em que nascemos como contra os que cometemos, e quer castigá-los por justo julgamento, agora, nesta vida, e na futura (1). Ele mesmo declarou: "Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las" (Gl 3.10) [Gn 2.17; Êx 20.5; Êx 34.7; Sl 5.5; Na 1.2; Rm 1.18; Rm 5.12; Ef 5.6; Hb 9.27; Dt 27.26].

O falso evangelho apresenta um deus de amor que não manifesta juízo. Entretanto, a Escritura Sagrada fala constantemente da ira de Deus contra o pecado. A sua ira revela outros dos atributos divinos, ou seja, ela é uma ira santa, justa, perfeita, onipotente, onisciente, etc. Por isso, Deus não erra, nem é injusto quando manifesta a sua ira contra alguém. Deus é justo ao condenar ao inferno e a sua sentença é perfeita. Mesmo que no mesmo lar houver membros ímpios e justos, a Escritura declara que “aquele que pecar é que morrerá. O filho não levará a culpa do pai, nem o pai levará a culpa do filho. A justiça do justo lhe será creditada, e a impiedade do ímpio lhe será cobrada” (Ez 18.20). Deus é o justo juiz.

Os pecados merecem justa condenação. A Escritura nos declara que “o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”(Rm 6.23). Deus nos adverte que “o que pecar contra mim violentará a sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte” (Pv 8.36). Então, o Senhor Deus é justo em retribuir a cada um segundo o seu pecado. Por isso, Paulo nos afirma que “por causa da sua teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento. Deus retribuirá a cada um conforme o seu procedimento. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça” (Rm 2.5-8). Mas a longanimidade de Deus faz com que ele não derrame toda a sua justa ira sobre a humanidade. Ele manifesta a sua bondade sobre todos, e dá graça e misericórdia aos seus eleitos.

Deus derrama juízos temporais sobre a humanidade. Juízos temporais são as manifestações dos castigos de Deus, no tempo presente, antes do juízo final. Eles começaram desde o Jardim do Éden quando Deus impôs o sofrimento e limitações ao nossos primeiros pais, e sobre a criação, por causa do seu primeiro pecado (Gn 3.17 e Rm 8.20). Assim, as enfermidades, dores, disfunções, desequilíbrios, a tristeza, destruições, etc. são juízos temporais divinos. Entretanto, podemos classifica-los em juízos temporais gerais e pessoais. Os que foram mencionados são juízos gerais, e não tem relação direta com algum pecado que tenhamos cometido. Entretanto, há juízos temporais pessoais, por serem consequência de pecados que praticamos. Eles podem ser resultantes da imoralidade do pecado, quando perdemos a boa reputação, o respeito, o crédito, e sobrevém a vergonha, a separação, a desconfiança e o desprezo. Podem vir em forma de doenças venéreas, ausência da alegria da salvação, desonra pessoal impedindo o exercício dos dons, ou a desqualificação para o exercício dos ofícios. Entretanto, por mais grave e vergonhoso seja o pecado de alguém isso não tira a graça salvadora sobre ele. Sabemos do jovem que adulterou com a esposa de seu pai, e terrível juízo lhe sobreveio, apesar de Paulo ordenar que “ entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor” (1Co 5.5).

Há quem pense que todo o sofrimento humano termina com a morte. Isto só é verdade para os salvos em Cristo. Pois, para aqueles que morreram sem Cristo há o inferno e o juízo eterno. Embora muitos ímpios usufruam, aparentemente impunes, de uma boa vida, na verdade eles terão um triste destino. Esperamos na misericórdia de Deus, mas os ímpios vivem sem esperança, por isso, Asafe diz “o meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre. Os que te abandonam sem dúvida perecerão; tu destróis todos os infiéis. Mas, para mim, bom é estar perto de Deus; fiz do Soberano Senhor o meu refúgio; proclamarei todos os teus feitos” (Sl 73.26-28).

03 maio 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 9

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 9. Então, Deus exige do homem, em sua lei, o que este não pode cumprir. Isto não é injusto?
R. Não, pois Deus criou o homem de tal maneira que este pudesse cumprir a lei (1). O homem, porém, sob instigação do diabo e por sua própria rebeldia, privou a si mesmo e a todos os seus descendentes destes dons (Gn 1.27; Ef 4.24; Gn 3.4-6; Rm 5.12; 1Tm 2.13-14).

Deus criou o homem capaz de cumprir perfeitamente a lei. Zacharias Ursinus, um dos autores do Catecismo de Heidelberg, disse que se Deus “requer o que é impossível somente é injusto se, primeiro, não deu a habilidade para cumprir o que ele exigiu; segundo, a menos que o homem cobiçou, e por si mesmo, consentiu escravizar-se nesta inabilidade; e, por último, a menos que o exigido não fosse possível ao homem obedecer, sendo de tal natureza, planejado levá-lo a reconhecer e desprezar a sua incapacidade. Mas Deus criou o homem à sua própria imagem, deu-lhe a habilidade de prestar-lhe obediência, a qual justamente requer dele em sua lei” [The Commentary on Heidelberg Catechism, p. 66]. Agostinho resumiu esta verdade ao dizer “dá-me aquilo que ordenas, ordena-me aquilo que queres.” Deus não exige o que ele mesmo não dá, e sabemos disto porque o apóstolo Paulo nos revela que “não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele lhes providenciará um escape, para que o possam suportar” (1Co 10:13). Ele exige que vençamos as tentações, porque nenhuma delas é mais forte do que o poder que ele nos dá, e se buscarmos a ele também nos dará livramento.

O diabo incentiva o despertamento da cobiça humana. Sabemos que Satanás nos oferece o que o nosso coração deseja. Ele não nos obriga a pecar. O inimigo de nossas almas é nosso tentador, mas nunca o autor do nosso pecado. Mas, ele nos conhece bem, e sabe das nossas fraquezas, e como nos iludir, bem como despertar desejos pecaminosos em nosso coração. Por isso, a Bíblia nos ordena resistir ao diabo e, consequentemente, ele fugirá de nós (Tg 4.7).

Os nossos primeiros pais se rebelaram contra a Deus. Eles estavam providos em Deus e deveriam estar satisfeitos nele, todavia, o diabo os convenceu de que havia algo maior que Deus lhes omitiu, e que eles deveriam experimentar o fruto proibido para que pudessem ser iguais à Deus. Na verdade, Deus os havia criado à sua imagem. Eles refletiam os atributos comunicáveis de Deus, e receberam autoridade para dominar sobre toda a criação. Entretanto, eles não queriam refletir a glória de Deus, mas queriam ter uma glória própria. O descontentamento foi despertado nos seus corações para que desejassem algo que é exclusivo em Deus.

Adão e Eva perderam parcialmente a imagem de Deus. Alguns dos atributos morais são fundamentais na imagem de Deus, ou seja, o conhecimento, a justiça e a santidade. Estas perfeições manifestavam a comunhão de Deus com o homem, sem elas o ser humano está separado de Deus (Is 59.2) e debaixo de sua divina ira (Jo 3.36). No entanto, além de sofrer o prejuízo moral e dano espiritual, os nossos primeiros pais tiveram os resquícios da imagem de Deus distorcida. O ser humano ainda preserva parte da imagem de Deus, mas ela está tão afetada pelo mal moral, que o pecado o animaliza tornando-o menos humano (Sl 32.9 e Sl 73.21-22).

Deus continua sendo justo em exigir obediência da lei moral apesar de todo o estrago do pecado. Todo ser humano deve adorar a Deus e amar ao próximo como a si mesmo (Mt 22.37-40) e cumprir todas as exigências da lei de Deus (Êx 20.1-17; Mt 5.17-19). Entretanto, lembremos que ao obedecer a lei não produzimos mérito para sermos aceitos diante de Deus, porque Cristo fez isso em nosso lugar e a nosso favor. Obedecemos porque somos habilitados amar à Deus (Rm 5.5), e cumprimos o que Ele exige de nós para agradar ao nosso Pai celestial (Jo 14.15).