24 agosto 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 16

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 16. Por que o Mediador deve ser verdadeiro homem e homem justo?
R. Deve ser verdadeiro homem, porque a justiça de Deus exige que o homem pague o pecado do homem. Deve ser homem justo, porque alguém que tem seus próprios pecados, não pode pagar por outros. (Is 53.3-5; Jr 33.15; Ez 18.4,20; Rm 5.12-15; 1Co 15.21; Hb 2.14-16; Sl 49.7; Hb 7.26-27; 1Pe 3.18).

Cristo na encarnação assumiu a nossa completa natureza humana. O Filho de Deus ao encarnar possui um corpo e alma, e todas as suas qualidades. Ele não só se torna humano, mas verdadeiro e perfeitamente humano. Declarando a ortodoxia dessa doutrina o Credo de Calcedônia [451 d.C.] afirma que na encarnação há “Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve confessar, em duas naturezas, inconfundíveis e imutáveis, inseparáveis e indivisíveis; a distinção das naturezas de modo algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para formar uma só pessoa e subsistência”. O Filho de Deus ao se encarnar não se tornou num ser híbrido, meio divindade e metade humanidade, nem houve uma mistura das duas naturezas. Ele tem inseparavelmente unidas as duas naturezas, sem que a divindade se torne humanizada, ou a humanidade seja divinizada. Jesus Cristo é, em sua a encarnação, verdadeiramente Deus e verdadeiramente humano.

O Senhor Jesus experimentou uma vida perfeita como verdadeiro homem. Embora foi tentado e sofreu à nossa semelhança (Hb 4.15); entretanto, nunca pecou, nem se rebelou contra o Pai, mas submeteu ao propósito eterno, cumprindo toda vontade do Pai (Jo 4.34; 5.30 e 6.38). Ele não foi tentado como Deus, porque a divindade não pode ser tentada (Tg 1.13), mas em sua humanidade foi exposto aos ataques e artimanhas de Satanás (Lc 4.1-13). Ele nunca usou os seus poderes divinos a seu favor, apesar de ser verdadeiro Deus, mas fez-se reconhecido como servo, humilhando-se em tudo, desde a encarnação até o sepultamento (Fp 2.5-8). Ele nunca fez um milagre sequer para beneficiar-se, nem venceu as tentações com o poder divino, nem resistiu as tentações comunicando alguma qualidade divina para a sua humanidade. O Filho de Deus triunfou sobre os seus inimigos evidenciando que Ele é verdadeiro homem, a fim de que, nele, sejamos conformados à sua imagem.

Era necessário, pelo decreto eterno do Pai, que o Filho se tornasse membro da raça humana e, como um verdadeiro homem, cumprisse o pacto das obras que o primeiro Adão falhou obedecer (Rm 5.12-21). Por isso, Cristo como o segundo Adão satisfez todas as exigências da Lei de Deus, produzindo a justiça, bem como as virtudes e dons necessários para merecer a aceitação em favor daqueles que o Pai lhe deu (Rm 8). Ele cumpriu perfeitamente a lei, suportou todo o sofrimento que lhe estava proposto, venceu Satanás, e foi vitorioso sobre a morte. Ele provou ser justo em todas as coisas! O Senhor Jesus pagou pelo pecado dos seus eleitos, obedecendo, morrendo e ressuscitando em seu lugar, e desse modo, merecendo-lhes a vida eterna!

15 agosto 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 15

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 15. Que tipo de Mediador e Salvador, então, devemos buscar?
R. O Mediador deve ser verdadeiro homem e homem justo, contudo, mais poderoso que todas as criaturas; portanto, alguém que é, ao mesmo tempo, verdadeiro Deus (1Co 15.21; Hb 7.26; Is 7.14; Is 9.6; Jr 23.6; Lc 11.22; Rm 8.3-4).

O mundo experimenta a deterioração dos valores que Deus estabeleceu para preservá-lo. A falta de sentido e propósito também produz a desesperança. A sociedade busca a sua redenção na tecnologia, cultura, política, economia e no sexo, todavia, estes meios são ineficazes de transformá-la construtivamente. Reconhecemos que as várias formas de idolatria são fabricadas pela cultura pós-moderna. Mas, infelizmente, a sociedade inclina-se a não reconhecer a verdade como absoluta, ridicularizando a concepção e a ação de Deus no mundo.

O nascimento de Jesus Cristo teve o propósito de reconciliar pecadores escolhidos com o santo Deus. Sendo o Filho de Deus, uma Pessoa que subsiste em duas naturezas, divina e humana, é o completo e final revelador entre Deus e os homens. O sofrimento, obediência, morte e ressurreição de Cristo obtiveram a justiça necessária para merecer-nos a aceitação de Deus, bem como a suficiente satisfação da sua ira, realizando a anulação da condenação pelos nossos pecados. Somos perdoados pela justiça e amor de Cristo Jesus, o nosso mediador. Ele eficazmente intercederá por nós até a sua segunda vinda. A obra de Cristo é o fundamento para a renovação de toda a criação pela presença espiritual e transformadora do seu reino.

O objetivo histórico da obra de Cristo foi a inauguração do seu reino sobre a terra. Isto inclui a salvação de indivíduos, bem como uma nova ordem na sociedade. Todavia, cremos que somente com os valores do reino de Deus, num discipulado integral, em que os cristãos se envolvem produtivamente em todas as áreas da vida, e participam pelo processo de restauração, transformação e desenvolvimento, reconhecendo Cristo como o Senhor em todas as esferas da nossa existência.

Estamos chegando ao fim da história humana não em direção ao desespero e caos, mas à consumação do propósito eterno de Deus. Cristo Jesus julgará toda a humanidade de todas as épocas e culturas, a uns dará a salvação segundo a sua misericórdia, e a outros segundo a sua justiça concederá a merecida condenação dos seus pecados. Ele é verdadeiro Deus para prescrever, exigir, julgar e redimir; e também é verdadeiro homem, para interceder, representar e nos tornar aceitáveis diante do Pai.

27 julho 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 14

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 14. Será que uma criatura, sendo apenas criatura, pode pagar por nós?
R. Não, não pode. Primeiro: porque Deus não quer castigar uma outra criatura pela dívida do homem. Segundo: porque tal criatura não poderia suportar o peso da ira eterna de Deus contra o pecado e dela livrar outros (Gn 3.17; Ez 18.4; Sl 130.3; Na 1.6).

Nenhuma criatura é capaz de pagar pela desobediência dos homens. Os animais sacrificados no Antigo Testamento não cancelavam a dívida do pecado. Eles eram mortos para indicar a consequência do pecado, a ira de Deus e o preço de transgredir a Lei. Em outras palavras, a Lei de Moisés tinha um uso didático de revelar a santidade de Deus, o pecado do homem e a apontar para a redenção em Cristo. Enquanto o pecado exige a sentença de morte, porque evoca a ira de Deus, a Lei didaticamente ensina a gravidade do pecado e a necessidade de satisfazer a justiça divina. Deus é santo e justo. Entretanto, o ensino da Lei se complementa com o Evangelho de Cristo; por isso, a finalidade da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê (Rm 10.4). Então, aprendemos com a Lei e o Evangelho que Deus é misericordioso e gracioso.

O esforço para salvar a si mesmo não é aceito por Deus. Inclusive, o Senhor proibiu o autoflagelamento, ou o sacrifício humano, como uma forma de expiação pelos pecados. Há alguns motivos para essa rejeição. Primeiro, porque o esforço humano é insuficiente. Ou seja, Deus requer uma obediência completa da Lei, e nenhum homem é capaz de cumprir todas as exigências e implicações da Lei. Segundo, porque o esforço humano é imperfeito. Ou seja, Deus requer uma obediência sem deficiência, e isto nenhum homem é capaz de cumprir sem falhar na motivação, no modo, ou no objetivo da Lei. Terceiro, porque o esforço humano é inadequado. Ou seja, Deus requer uma obediência prescrita, e não um sacrifício humanamente inventado. O Senhor decidiu que o sacrifício seria de um mediador perfeito. Entretanto, nenhum homem é capaz de cumprir porque é um mero descendente de Adão. Todos os filhos do primeiro homem nascem sob a sua maldição de morte (Rm 5.12 e Ef 2.1). Eles são escravos do pecado, inimigos de Deus, hostis à santa Lei e servos de Satanás, por natureza são filhos da ira. Como criaturas inábeis para se relacionarem com Deus, também oferecem modos inadequados para agradá-lo. Mas, mesmo que um simples homem nascesse sem pecado, e obedecesse toda a Lei como Deus exige, ainda assim não serviria como um sacrifício suficiente para outros homens. A obediência perfeita de um único homem somente mereceria aceitação diante de Deus para si, e não para outros. O seu sacrifício seria suficiente para si, mas ainda continuaria inadequado para todos os demais.

O Catecismo Maior de Westminster [Perg./Resp. 40] explica qual a necessidade do Mediador ser Deus e homem em uma só pessoa. Ele declara que “era necessário que o Mediador, que havia de reconciliar o homem com Deus, fosse Deus e homem, e isso em uma só pessoa, para que as obras próprias de cada natureza fossem aceitas por Deus em nosso favor e que confiássemos nelas como as obras da pessoa inteira”. Era necessário que o sacrífico perfeito fosse homem, não um animal ou cereais, porque o pecado cometido e transmitido pelo primeiro homem contaminou todos os homens, por isso, a penalidade deve recair sobre os que quebram a Lei. Um descendente de Adão deveria produzir uma obediência perfeita para restaurar o pacto quebrado (Gn 3.15), por isso, era necessário que o sacrifício fosse um verdadeiro homem. Mas, se fosse apenas um simples homem, ele apenas conseguiria oferecer um sacrifício de valor limitado. Por isso, era necessário que fosse verdadeiro Deus, para que a sua obediência e sacrifício possuísse um valor infinito! Cristo cumpriu toda a Lei, satisfez a justiça do Pai, produziu perfeita virtude, venceu a sentença da morte, e produziu vida abundante para todos por quem ele representou como Mediador da Aliança. A morte de Cristo foi suficiente para salvar aqueles que o Pai lhe deu.

05 julho 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 13

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 13. Nós mesmos podemos satisfazer essa justiça?
R. De maneira alguma. Pelo contrário, aumentamos, a cada dia, a nossa dívida com Deus (Jó 4.18-19; Jó 9:2-3; Jó 15.16; Sl 130.3; Mt 6.12; Mt 16.26; Mt 18.25).

Ninguém é capaz de satisfazer a Lei moral com a qualidade exigida. Deus não aceita uma obediência que não seja perfeita. Cumprir a lei de Deus pelo nosso padrão moral não lhe é algo aceitável. Quem aceitaria comer num restaurante que tivesse um criadouro de porcos na cozinha? A ideia é tão absurda que não conseguimos conceber como isso seria possível! Mas a verdade é pior do que colocar sujeira ao lado do preparo da comida, porque o nosso coração é a fonte dessa imundícia. Por isso Cristo denuncia que “as coisas que saem da boca vêm do coração, e são essas que tornam o homem ‘impuro’. Pois do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias” (Mt 15.18-19). Se o nosso critério de pureza exige um padrão mínimo necessário para ser aceitável, e sendo nós pecadores, imagine qual o nível de pureza que Deus exige em sua perfeita santidade. Não temos qualificação moral para nos apresentarmos diante dele! Pelo contrário, o nosso pecado nos torna maltrapilhos, imundos, fétidos, desprezíveis e contaminamos tudo o que tocamos ou fazemos. A lei revela nossa total inabilidade de obedecer perfeitamente a vontade de Deus.

É impossível satisfazermos a Lei de Deus na quantidade exigida. Alguns pensam que obedecer a lei de Deus é apenas seguir a literalidade dos Dez Mandamentos. Daí, enganados pelo seu superficial entendimento da lei, dizem: “nunca matei, nem adulterei, e não sou um ladrão”. A verdade é que pecam mais do que conseguem perceber, e estão iludidos com uma rasa interpretação do decálogo. Isso é mera cegueira espiritual (Jo 9.39-41). Deus requer a completa obediência da Lei moral, em toda a sua extensão, motivação e implicações, e não o mero cumprimento superficial da letra da lei. Por esse motivo não conseguimos produzir virtude suficiente que agrada a Deus. Diminuir o entendimento da Lei moral não dilui o dever de obediência em toda a sua extensão. Enquanto há quem se iluda com a ideia de que consegue obedecer aos Dez Mandamentos, a própria Escritura nos adverte dessa falha mortal, declarando que se alguém se esforça em obedecer “toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10). Ninguém consegue oferecer uma plena obediência da Lei moral em toda a sua extensão e implicações, e Deus não aceita menos do que o seu completo cumprimento.

Somos incapazes porque ao tentar cumprir a Lei moral, desobedecemos ainda mais. Você conhece pessoas que devendo ao banco pegam mais empréstimos para pagar dívidas anteriores? Elas não estão diminuindo a dívida, mas aumentando o valor da dívida, além dos seus juros! A tentativa de merecer aceitação diante de Deus pela obediência da lei apenas traz condenação. Então, devemos desistir e nos entregar ao pecado? Não! Isso só traria acréscimo de juízo no Dia do Juízo (Rm 2.5-8). Então o que fazer? Se a sua conclusão for: então é impossível obedecer a Deus como ele requer! Ok, você entendeu porque e o quanto dependemos de Cristo. Por isso o Filho de Deus nos disse: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5). Somos totalmente incapazes de obedecer a Lei moral como Deus requer, mas Cristo obedeceu, como nosso substituto, cumprindo todas as exigências da lei, e satisfez a vontade do Pai. Ele mereceu, em nosso lugar, o favor e a aceitação que carecemos de Deus. Por isso, podemos cantar com Augustus Toplady que “não por obras nem penar, plena paz terei aqui. Só tu podes consolar, há perdão somente em ti. Rocha eterna, só na cruz eu confio, ó meu Jesus!” [Hino 136 HNC]. A consciência atormentada pela certeza de que desobedecemos, e que a transgressão da lei aumenta a nossa dívida, crescentemente nos angustia. Entretanto, somos consolados por sabermos que temos Cristo como pagador do nosso resgate, e que alcançamos o pleno perdão nele. O Amado da nossa alma é perfeito, suficiente e capaz de nos fazer aceitáveis diante do Pai.

29 junho 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 12

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 12. Então, conforme o justo julgamento de Deus, merecemos castigo, nesta vida e na futura. Como podemos escapar deste castigo e, de novo, ser aceitos por Deus em graça?
R. Deus quer que sua justiça seja cumprida. Por isso, nós mesmos devemos satisfazer essa justiça, ou um outro por nós. (Gn 2.17; Êx 20.5; Êx 23.7; Ez 18.4; Hb 10.30; Mt 5.26; Rm 8.3-4).

O juízo de Deus é justo. A Escritura Sagrada sentencia que “todos pecaram” (Rm 3.23), e que “o salário do pecado é a morte” (Rm 6.23). Ninguém é forçado à pecar, ou tem a necessidade de pecar; pelo contrário, todos pecam conscientes e intencionalmente. Ninguém pode se vitimizar diante de Deus alegando que são constrangidos a pecar, porque não tiveram outra opção. Desde o primeiro homicídio somos informados que “se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procederes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo” (Gn 4.7). Por causa do nosso pecado, somos merecedores de condenação; por isso, Deus é justo juiz!

Como podemos escapar da sua condenação? O puritano Jonathan Edwards pregou um sermão sob o título “Pecadores nas mãos de um Deus irado”. A história nos relata que os ouvintes foram tomados por um grande temor vindo do Espírito Santo. O Espírito de Deus os moveu para o arrependimento, convencendo-os de seus pecados, e o quanto a sua desobediência é ofensiva à Deus. A tristeza invadiu as suas almas porque pecaram contra o santo Deus. Bem como um desespero se apossou de suas mentes por estarem convictos de que mereceriam os tormentos do inferno! Entretanto, o evangelho fala da imerecida graça que revela o perdão e nos ordena o arrependimento; e que confiemos na promessa de que não seremos rejeitados, mas aceitos por causa das virtudes de Cristo Jesus. Deus usou aquele sermão para salvar, restaurar e santificar muitos de seus filhos naquele culto. A verdade liberta da ira vindoura, da condenação e de uma consciência atormentada pela culpa e medo.

Deus exige que a sua justiça seja cumprida. É nosso dever satisfazer todas as exigências da lei de Deus. Essa é uma tarefa impossível de realizarmos. Por isso, Deus aceitou a obediência de um substituto, o seu Filho, que cumpriu tudo o que a lei exigia. O Pai entregou o seu Filho para a morte, transferiu para ele os nossos pecados e derramou sobre ele a sua santa ira. Deus decidiu odiar o seu Filho por causa dos nossos pecados, para que nos amasse, por causa da justiça do Filho. Paulo nos declara que “agora já não há condenação para os que estão em Cristo Jesus, porque por meio de Cristo Jesus a lei do Espírito de vida me libertou da lei do pecado e da morte. Porque, aquilo que a lei fora incapaz de fazer por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado. E assim condenou o pecado na carne, a fim de que as justas exigências da lei fossem plenamente satisfeitas em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.1-4). A graça que nos alcança é gratuita, mas Cristo produziu virtude pela sua perfeita obediência! O Filho de Deus pagou o alto preço pela infinita ofensa dos nossos pecados. Ele pode nos dar o perdão, reconciliando-nos com o Pai, declarando-nos justificados, adotando-nos como filhos de Deus e tornando-nos alvo de seu eterno amor. A justiça foi cumprida, em Cristo, conforme Deus exige.

30 maio 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 11

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 11. Mas Deus não é também misericordioso?
R. Deus na verdade é misericordioso(1), mas também e justo (2). Por isso, sua justiça exige que o pecado, cometido contra a suprema majestade de Deus, seja castigado também com a pena máxima, quer dizer, com o castigo eterno em corpo e alma [Êx 20.6; Êx 34.6,7; Êx 20.5; Êx 23.7; Êx 34.7; Sl 7.9; Na 1.2-3; 2Ts 1.9].

As pessoas querem viver no pecado, indiferentes à vontade de Deus, sem colher as consequências de suas decisões. Quando são lembradas de que haverá um juízo final, e que prestarão contas de tudo o que viveram, elas contestam que Deus é misericordioso. Elas recorrem ao amor de Deus sem nenhum arrependimento, sem crerem na redenção de Cristo, e sem clamarem pelo seu perdão. Deus é gracioso com aqueles que buscam a sua misericórdia com contrição, e se arrependem verdadeiramente dos seus pecados.

Devemos lembrar que o pecado é um problema legal e moral. Ele é um problema legal porque é a transgressão da lei de Deus. É desobediência, rebeldia e iniquidade, de modo que, todos merecidamente são sentenciados à pena de morte. A desobediência da lei moral exige justa punição. Mas o pecado também é um problema moral. Ele é moral porque envolve os motivos do coração pervertendo, deformando, corrompendo, indispondo e poluindo tudo em nós contra Deus. Por isso, “se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça” (1Jo 1.9).

A justiça exige punição quando não há arrependimento verdadeiro. Quando nos endurecemos em nossos pecados e desprezamos a misericórdia de Deus, corremos grande perigo! O autor da epístola aos Hebreus nos adverte que “não haja nenhum imoral ou profano, como Esaú, que por uma única refeição vendeu os seus direitos de herança como filho mais velho. Como vocês sabem, posteriormente, quando quis herdar a bênção, foi rejeitado; e não teve como alterar a sua decisão, embora buscasse a bênção com lágrimas” (Hb 12.16-17).

Não podemos confundir remorso com arrependimento, porque são disposições morais diferentes. O arrependimento reconhece a desobediência da lei moral, sabe que ofendeu a santidade de Deus, e que merece a punição sentenciada pela Palavra de Deus, e é tomado pela tristeza de pecar contra o Senhor (Sl 32 e 51; Dn 9.1-19). O arrependido sabe que a graça o limpará da imundícia do pecado, e que não há mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus (Rm 8.1). O temor do Senhor produz arrependimento.

O remorso, entretanto, não é assim. Embora seja um sentimento acompanhado de tristeza e vergonha, ele não está convencido de ter ofendido ao Senhor. A angústia do remorso é movida pela vergonha da sua imoralidade que se tornou pública. Ele está envergonhado pois a sua reputação se manchou, e o seu nome é criticado, zombado e desmoralizado. Por isso, Paulo afirma que “a tristeza segundo Deus produz um arrependimento que leva à salvação e não remorso, mas a tristeza segundo o mundo produz morte” (2 Co 7.9). O remorso é a dor causada pelo golpe do próprio pecado no seu orgulho. É chorar o prejuízo que sofreu, e os benefícios que perdeu. Os arrependidos buscam a Deus, enquanto pessoas angustiadas pelo remorso podem, até mesmo, cometer suicídio. O temor dos homens produz remorso.

A Bíblia fala que há céu e inferno. Estes dois termos se referem à condição e ao lugar onde estão as almas após a morte. É uma condição porque o céu é uma graciosa relação de comunhão, por meio de Cristo, com Deus. Nesse sentido, o céu começa aqui, num vínculo de já e ainda-não (Fp 3.1-4). Mas o céu também é o lugar aonde as almas dos eleitos vão após morrerem. Eles estão com o Senhor, conscientes, adorando, sendo consolados, e esperando a consumação de todas as coisas (Ap 6.9-11).

O inferno também é uma condição e um local. Ele é uma condição, porque é a contínua ira de Deus sobre os ímpios (Jo 3.36), e é um lugar porque é para lá que as almas deles vão quando falecem sem Cristo. O inferno foi criado por Deus para guardar provisoriamente as almas daqueles que receberão maior juízo no grande e terrível Dia do Senhor. Naquele dia não será o momento para se descobrir se será salvo, ou não (Jo 3.17-19); mas, o juízo final será para sentenciar quanto ao galardão, ou a intensidade de maiores sofrimentos, conforme as obras de cada um (Rm 2.5-10). Atualmente, no inferno, o juízo é parcial, porque a ira de Deus se manifesta apenas contra a alma, mas no último dia a punição será completa, porque será contra o corpo e alma daqueles que se rebelaram contra Deus (Ap 20.11-15). Qual será o seu julgamento?

15 maio 2019

SPIRITUS SANCTUS

Ó Espírito Santo,
Como o sol é pleno de luz,
o oceano abundante de água,
O céu repleto de glória,
assim meu coração seja cheio de Ti.
Inúteis são todos propósitos divinos do amor
e a redenção consumada por Jesus
a não ser, se Tu operas internamente,
regenerando pelo teu poder,
dando-me olhos para ver Jesus
mostrando-me as realidades do mundo invisível.
Dá-me a Ti mesmo sem medida
como uma fonte intocada,
como riquezas inesgotáveis.
Eu lamento minha frieza, pobreza, vazio,
visão imperfeita, culto desanimado,
orações vazias, louvor sem valor.
Sofro por não me afligir ou resistir a Ti.
Venha como poder,
para expulsar toda rebelde luxúria, para reinar supremo e manter-me Teu;
Venha como mestre,
conduzindo-me à toda a verdade, enchendo-me de todo entendimento;
Venha como amor
para que eu possa adorar o Pai e amá-lo com tudo o que tenho;
Vem como alegria,
habitar em mim, mover-se em mim, animar-me;
Venha como luz
iluminando as Escrituras, moldando-me em Tuas leis;
Vem como santificador
corpo, alma e espírito são totalmente Teus;
Venha como auxiliador,
com poder para abençoar e manter, direcionando todos os meus passos;
Vem como embelezador,
trazendo ordem a partir da confusão, amabilidade do caos.
Engrandeça-me na Tua glória, magnificando-se em mim
e me faça sentir a Tua fragrância.

11 maio 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 10

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 10. Deus deixa sem castigo esta desobediência e rebeldia?
R. Não, não deixa, porque Ele se ira terrivelmente tanto contra os pecados em que nascemos como contra os que cometemos, e quer castigá-los por justo julgamento, agora, nesta vida, e na futura (1). Ele mesmo declarou: "Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da lei, para praticá-las" (Gl 3.10) [Gn 2.17; Êx 20.5; Êx 34.7; Sl 5.5; Na 1.2; Rm 1.18; Rm 5.12; Ef 5.6; Hb 9.27; Dt 27.26].

O falso evangelho apresenta um deus de amor que não manifesta juízo. Entretanto, a Escritura Sagrada fala constantemente da ira de Deus contra o pecado. A sua ira revela outros dos atributos divinos, ou seja, ela é uma ira santa, justa, perfeita, onipotente, onisciente, etc. Por isso, Deus não erra, nem é injusto quando manifesta a sua ira contra alguém. Deus é justo ao condenar ao inferno e a sua sentença é perfeita. Mesmo que no mesmo lar houver membros ímpios e justos, a Escritura declara que “aquele que pecar é que morrerá. O filho não levará a culpa do pai, nem o pai levará a culpa do filho. A justiça do justo lhe será creditada, e a impiedade do ímpio lhe será cobrada” (Ez 18.20). Deus é o justo juiz.

Os pecados merecem justa condenação. A Escritura nos declara que “o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor”(Rm 6.23). Deus nos adverte que “o que pecar contra mim violentará a sua própria alma; todos os que me odeiam amam a morte” (Pv 8.36). Então, o Senhor Deus é justo em retribuir a cada um segundo o seu pecado. Por isso, Paulo nos afirma que “por causa da sua teimosia e do seu coração obstinado, você está acumulando ira contra si mesmo, para o dia da ira de Deus, quando se revelará o seu justo julgamento. Deus retribuirá a cada um conforme o seu procedimento. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça” (Rm 2.5-8). Mas a longanimidade de Deus faz com que ele não derrame toda a sua justa ira sobre a humanidade. Ele manifesta a sua bondade sobre todos, e dá graça e misericórdia aos seus eleitos.

Deus derrama juízos temporais sobre a humanidade. Juízos temporais são as manifestações dos castigos de Deus, no tempo presente, antes do juízo final. Eles começaram desde o Jardim do Éden quando Deus impôs o sofrimento e limitações ao nossos primeiros pais, e sobre a criação, por causa do seu primeiro pecado (Gn 3.17 e Rm 8.20). Assim, as enfermidades, dores, disfunções, desequilíbrios, a tristeza, destruições, etc. são juízos temporais divinos. Entretanto, podemos classifica-los em juízos temporais gerais e pessoais. Os que foram mencionados são juízos gerais, e não tem relação direta com algum pecado que tenhamos cometido. Entretanto, há juízos temporais pessoais, por serem consequência de pecados que praticamos. Eles podem ser resultantes da imoralidade do pecado, quando perdemos a boa reputação, o respeito, o crédito, e sobrevém a vergonha, a separação, a desconfiança e o desprezo. Podem vir em forma de doenças venéreas, ausência da alegria da salvação, desonra pessoal impedindo o exercício dos dons, ou a desqualificação para o exercício dos ofícios. Entretanto, por mais grave e vergonhoso seja o pecado de alguém isso não tira a graça salvadora sobre ele. Sabemos do jovem que adulterou com a esposa de seu pai, e terrível juízo lhe sobreveio, apesar de Paulo ordenar que “ entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor” (1Co 5.5).

Há quem pense que todo o sofrimento humano termina com a morte. Isto só é verdade para os salvos em Cristo. Pois, para aqueles que morreram sem Cristo há o inferno e o juízo eterno. Embora muitos ímpios usufruam, aparentemente impunes, de uma boa vida, na verdade eles terão um triste destino. Esperamos na misericórdia de Deus, mas os ímpios vivem sem esperança, por isso, Asafe diz “o meu corpo e o meu coração poderão fraquejar, mas Deus é a força do meu coração e a minha herança para sempre. Os que te abandonam sem dúvida perecerão; tu destróis todos os infiéis. Mas, para mim, bom é estar perto de Deus; fiz do Soberano Senhor o meu refúgio; proclamarei todos os teus feitos” (Sl 73.26-28).

03 maio 2019

Exposição devocional do Catecismo de Heidelberg - Q/R 9

Catecismo de Heidelberg – Pergunta 9. Então, Deus exige do homem, em sua lei, o que este não pode cumprir. Isto não é injusto?
R. Não, pois Deus criou o homem de tal maneira que este pudesse cumprir a lei (1). O homem, porém, sob instigação do diabo e por sua própria rebeldia, privou a si mesmo e a todos os seus descendentes destes dons (Gn 1.27; Ef 4.24; Gn 3.4-6; Rm 5.12; 1Tm 2.13-14).

Deus criou o homem capaz de cumprir perfeitamente a lei. Zacharias Ursinus, um dos autores do Catecismo de Heidelberg, disse que se Deus “requer o que é impossível somente é injusto se, primeiro, não deu a habilidade para cumprir o que ele exigiu; segundo, a menos que o homem cobiçou, e por si mesmo, consentiu escravizar-se nesta inabilidade; e, por último, a menos que o exigido não fosse possível ao homem obedecer, sendo de tal natureza, planejado levá-lo a reconhecer e desprezar a sua incapacidade. Mas Deus criou o homem à sua própria imagem, deu-lhe a habilidade de prestar-lhe obediência, a qual justamente requer dele em sua lei” [The Commentary on Heidelberg Catechism, p. 66]. Agostinho resumiu esta verdade ao dizer “dá-me aquilo que ordenas, ordena-me aquilo que queres.” Deus não exige o que ele mesmo não dá, e sabemos disto porque o apóstolo Paulo nos revela que “não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel; ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, ele lhes providenciará um escape, para que o possam suportar” (1Co 10:13). Ele exige que vençamos as tentações, porque nenhuma delas é mais forte do que o poder que ele nos dá, e se buscarmos a ele também nos dará livramento.

O diabo incentiva o despertamento da cobiça humana. Sabemos que Satanás nos oferece o que o nosso coração deseja. Ele não nos obriga a pecar. O inimigo de nossas almas é nosso tentador, mas nunca o autor do nosso pecado. Mas, ele nos conhece bem, e sabe das nossas fraquezas, e como nos iludir, bem como despertar desejos pecaminosos em nosso coração. Por isso, a Bíblia nos ordena resistir ao diabo e, consequentemente, ele fugirá de nós (Tg 4.7).

Os nossos primeiros pais se rebelaram contra a Deus. Eles estavam providos em Deus e deveriam estar satisfeitos nele, todavia, o diabo os convenceu de que havia algo maior que Deus lhes omitiu, e que eles deveriam experimentar o fruto proibido para que pudessem ser iguais à Deus. Na verdade, Deus os havia criado à sua imagem. Eles refletiam os atributos comunicáveis de Deus, e receberam autoridade para dominar sobre toda a criação. Entretanto, eles não queriam refletir a glória de Deus, mas queriam ter uma glória própria. O descontentamento foi despertado nos seus corações para que desejassem algo que é exclusivo em Deus.

Adão e Eva perderam parcialmente a imagem de Deus. Alguns dos atributos morais são fundamentais na imagem de Deus, ou seja, o conhecimento, a justiça e a santidade. Estas perfeições manifestavam a comunhão de Deus com o homem, sem elas o ser humano está separado de Deus (Is 59.2) e debaixo de sua divina ira (Jo 3.36). No entanto, além de sofrer o prejuízo moral e dano espiritual, os nossos primeiros pais tiveram os resquícios da imagem de Deus distorcida. O ser humano ainda preserva parte da imagem de Deus, mas ela está tão afetada pelo mal moral, que o pecado o animaliza tornando-o menos humano (Sl 32.9 e Sl 73.21-22).

Deus continua sendo justo em exigir obediência da lei moral apesar de todo o estrago do pecado. Todo ser humano deve adorar a Deus e amar ao próximo como a si mesmo (Mt 22.37-40) e cumprir todas as exigências da lei de Deus (Êx 20.1-17; Mt 5.17-19). Entretanto, lembremos que ao obedecer a lei não produzimos mérito para sermos aceitos diante de Deus, porque Cristo fez isso em nosso lugar e a nosso favor. Obedecemos porque somos habilitados amar à Deus (Rm 5.5), e cumprimos o que Ele exige de nós para agradar ao nosso Pai celestial (Jo 14.15).

23 abril 2019

A segunda vinda

Ó Filho de Deus e Filho do homem,
Tu foste encarnado, sofreste, subiste, ascendeste por minha causa;
Tua partida não foi um sinal de separação, mas um penhor de retorno;
Tua Palavra, promessas, sacramentos, revelam a tua morte até que venhas novamente.
Esse dia não é um horror para mim
porque a tua morte me redimiu,
Teu Espírito me enche,
Teu amor me anima,
Tua Palavra me governa.
Confiei em ti e não tu traíste a minha confiança;
Esperei por ti e não esperei em vão.
Tu levantarás o meu corpo do pó e o reunirás à minha alma,
por uma maravilhosa obra de infinito poder e amor,
maior do que o que limita as águas dos oceanos,
agitas e fluis as marés
manténs as estrelas em seu curso
se dás vida a todas as criaturas.
O que é corruptível se revestirá de incorruptibilidade
o mortal, de imortalidade,
este corpo natural, se tornará num corpo espiritual,
este corpo desonrado, se transformará um corpo glorioso,
e este corpo fraco, num corpo de poder.
Eu triunfo agora em tuas promessas como farei em tua realização,
porque a cabeça não pode viver se os membros estiverem mortos;
Além da sepultura é ressurreição, julgamento, perdão e domínio.
Todos os eventos e circunstâncias da minha vida serão tratados -
os pecados da minha juventude, meus pecados secretos,
os pecados de abusos contra ti, de desobedecer a tua Palavra,
os pecados de negligenciar as admoestações dos ministros,
os pecados de violar a minha consciência -
tudo será julgado;
E depois do julgamento haverá paz e descanso, vida e serviço,
emprego e gozo para os teus eleitos.
Ó Deus, preserve-me nessa fé e sempre buscando o retorno de Cristo.