O Espírito Santo como autor da oração

Os verdadeiros salvos oram a Palavra, movidos pelo Espírito, e as orações estimuladas por Ele, recebem os méritos de Cristo, aplicadas em quem ora, pelo próprio Espírito. Assim, conclui-se que a oração é um meio de graça, porque “da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8:26, NVI). Comentando este verso Wilhelmus à Brakel conclui que “isto significa que o Espírito Santo garante a disposição e desejos, concede as palavras na boca, segue adiante delas, e causa-as para orar depois delas.”[1] Nesta mesma perspectiva Ronald S. Wallace conclui que a relação da oração e do Espírito é que “nenhum homem é capaz de orar corretamente através de impulsos espontâneos de seus próprios sentimentos. Pois tal oração aparte do Espírito de Deus não é mais do que um mero balbuciar e um caçoar de Deus.”[2]

A oração não é uma atividade meramente humana. Nem mesmo é um simples resultado da influência santificadora do Espírito Santo, como se a terceira Pessoa da Trindade apenas estimulasse sentimentos de dependência, e o crente então, começasse a orar. Em outras palavras, a oração é uma ação da graça eficaz da Trindade no eleito, de modo que a sua salvação e santificação é realizada no Espírito, nos méritos de Cristo, e a oração, segundo a vontade de Deus é eficazmente atendida. Não seria biblicamente exato acusar a oração de ser uma ação da subjetividade emocional do ser humano. A Palavra de Deus é o conteúdo que o Espírito conduz o crente a orar, para que segundo o preceito de Deus, esteja de acordo com a sua vontade. Whilhelm Niesel conclui que “Cristo fornece a possibilidade objetiva da oração, e a fé a subjetiva. Falando estritamente poderíamos dizer que o Espírito Santo vem antes da fé. Assim, quando Calvino indica as pressuposições da oração, ele enfatiza, às vezes, a obra do Espírito Santo em do poder da fé. (...) A obra do Espírito não somente é a fé, mas também, o fruto da fé; isto é, oração. Este fato é a garantia de que a oração está fundamentada na palavra de Deus.”[3]

Oração é um meio de graça, porque quando oramos não intencionamos mudar algo em Deus, mas em nós.[4] É estranho, por exemplo, ler um teólogo calvinista, como A.A. Hodge, declarar que “a eficiência [da oração] consiste no seu poder de afetar a mente de Deus e dispô-la para fazer por nós o que ele não faria se não orássemos”.[5] Este raciocínio é falacioso, porque a oração não redireciona Deus à nosso favor, mas, pelo contrário, ela nos predispõe para aquilo que Ele quer realizar.

Notas:
[1] Wilhelmus à Brakel, The Christian’s Reasonable Service (Pittsbrugh, Soli Deo Gloria Publications, 1994), vol. 3, p. 452.
[2] Ronald S. Wallace, Calvin’s Doctrine of the Christian Life (Eugene, Wipf and Stock Publishers, 1997), p. 286.
[3] Wilhelm Niesel, The Theology of Calvin (Cambridge, James Clarke & Co., 2002), p. 155.
[4] Robert L. Dabney, Lectures on Systematic Theology (Grand Rapids, Zondervan Publishing House, 1978), p. 716.
[5] A.A. Hodge, Evangelical Theology (Edinburgh, The Banner of Truth, 1976), p. 91.

Comentários

Anônimo disse…
Irmão,

Tenho certa dificuldade para entender a expressão "orar a Palavra". Já a ouvi de pessoas do meio reformado, do pessoal que sai determinando por aí e de membros da igreja local. Será que todos estão se se referindo ao mesmo sentido?

Por outro lado, como fazer isso na prática?

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