12 setembro 2008

O Espírito Santo como autor da oração

Os verdadeiros salvos oram a Palavra, movidos pelo Espírito, e as orações estimuladas por Ele, recebem os méritos de Cristo, aplicadas em quem ora, pelo próprio Espírito. Assim, conclui-se que a oração é um meio de graça, porque “da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis” (Rm 8:26, NVI). Comentando este verso Wilhelmus à Brakel conclui que “isto significa que o Espírito Santo garante a disposição e desejos, concede as palavras na boca, segue adiante delas, e causa-as para orar depois delas.”[1] Nesta mesma perspectiva Ronald S. Wallace conclui que a relação da oração e do Espírito é que “nenhum homem é capaz de orar corretamente através de impulsos espontâneos de seus próprios sentimentos. Pois tal oração aparte do Espírito de Deus não é mais do que um mero balbuciar e um caçoar de Deus.”[2]

A oração não é uma atividade meramente humana. Nem mesmo é um simples resultado da influência santificadora do Espírito Santo, como se a terceira Pessoa da Trindade apenas estimulasse sentimentos de dependência, e o crente então, começasse a orar. Em outras palavras, a oração é uma ação da graça eficaz da Trindade no eleito, de modo que a sua salvação e santificação é realizada no Espírito, nos méritos de Cristo, e a oração, segundo a vontade de Deus é eficazmente atendida. Não seria biblicamente exato acusar a oração de ser uma ação da subjetividade emocional do ser humano. A Palavra de Deus é o conteúdo que o Espírito conduz o crente a orar, para que segundo o preceito de Deus, esteja de acordo com a sua vontade. Whilhelm Niesel conclui que “Cristo fornece a possibilidade objetiva da oração, e a fé a subjetiva. Falando estritamente poderíamos dizer que o Espírito Santo vem antes da fé. Assim, quando Calvino indica as pressuposições da oração, ele enfatiza, às vezes, a obra do Espírito Santo em do poder da fé. (...) A obra do Espírito não somente é a fé, mas também, o fruto da fé; isto é, oração. Este fato é a garantia de que a oração está fundamentada na palavra de Deus.”[3]

Oração é um meio de graça, porque quando oramos não intencionamos mudar algo em Deus, mas em nós.[4] É estranho, por exemplo, ler um teólogo calvinista, como A.A. Hodge, declarar que “a eficiência [da oração] consiste no seu poder de afetar a mente de Deus e dispô-la para fazer por nós o que ele não faria se não orássemos”.[5] Este raciocínio é falacioso, porque a oração não redireciona Deus à nosso favor, mas, pelo contrário, ela nos predispõe para aquilo que Ele quer realizar.

Notas:
[1] Wilhelmus à Brakel, The Christian’s Reasonable Service (Pittsbrugh, Soli Deo Gloria Publications, 1994), vol. 3, p. 452.
[2] Ronald S. Wallace, Calvin’s Doctrine of the Christian Life (Eugene, Wipf and Stock Publishers, 1997), p. 286.
[3] Wilhelm Niesel, The Theology of Calvin (Cambridge, James Clarke & Co., 2002), p. 155.
[4] Robert L. Dabney, Lectures on Systematic Theology (Grand Rapids, Zondervan Publishing House, 1978), p. 716.
[5] A.A. Hodge, Evangelical Theology (Edinburgh, The Banner of Truth, 1976), p. 91.

2 comentários:

cincosolas disse...

Irmão,

Tenho certa dificuldade para entender a expressão "orar a Palavra". Já a ouvi de pessoas do meio reformado, do pessoal que sai determinando por aí e de membros da igreja local. Será que todos estão se se referindo ao mesmo sentido?

Por outro lado, como fazer isso na prática?

Seminário disse...

Muito interesante seu post,que Deus possa continuar lhe abençoando.Parabéns!!!!
Seminario Internacional Teologico de São Paulo