03 maio 2008

Quem é má influência?

Educamos os nossos filhos planejando que eles sejam pessoas que tenham uma família bem estruturada, para que sirvam com os seus dons na igreja e sejam queridos na sociedade. Esperamos que eles saibam escolher os seus amigos, e que andem sempre em boa companhia. É pavoroso pensar que os nossos filhos estejam com pessoas de má índole; mas, mais angustiante é imaginar que eles se tornem vítimas da escória da sociedade. Ninguém espera que o seu filho se torne um viciado, nem que cometa vandalismo, ou que seja pego com marginais em atos criminosos!

Mas, você já parou prá pensar que é possível que os nossos filhos sejam "a má influência"? Somos tendenciosos em pensar neles sempre recebendo má influência, mas, e se for o contrário, e, se o problema estiver neles? Isto enche o seu coração de temor? Se você realmente se preocupa com a educação e o futuro do seu filho, leia atentamente o que vou escrever. Talvez, esta repreensão sirva prá você e terá maior valor se aplicá-la na formação dos seus filhos.

Responda com sinceridade: você aceita que outras pessoas denunciem os erros e algum mau comportamento de seus filhos? Não?! Caso você seja destes pais que "os meus filhos estão sempre certos", quero lhe falar algo simples: não seja tolo. Filhos nem sempre se comportam na companhia de outras pessoas como eles são na presença dos seus pais. Se você rejeita toda denúncia que parentes, amigos e professores fazem dos pecados públicos dos seus filhos, você estará criando neles um sentimento de impunidade. Este sentimento é fermento para a criminalidade. É uma raíz que crescerá e causará danos a médio e longo prazo. Boas famílias descuidadas neste importante detalhe diluem todo o esforço educacional investido em seus filhos, porque geraram neles a convicção de que os seus pecados são aceitos e não precisam ser corrigidos, que não importa o que fizerem de perverso, os seus pais sempre virão em seu auxílio passando "a mão em sua cabeça". Se os nossos filhos desenvolverem e crerem neste raciocínio, seremos culpados de desgraçar as suas vidas!

Não podemos ignorar o fato de que eles são ainda pecadores não-regenerados. Não estou insinuando que você tem se omitido na educação dos seus filhos. Estou afirmando que eles, embora sendo crianças, têm uma potencialidade natural para o mal tanto quanto eu e você, ainda que não tenham a mesma sagacidade para pecar de forma tão polida como nós adultos. Por isso, carecem de correção, em amor, com orientação na Palavra de Deus, para que o temor do Senhor seja implantado em seus corações. Esteja atento ao comportamento do seu filho, ouça denúncias contra os seus filhos e as verifique. Seja justo em corrigí-los a tempo, se for comprovado que pecaram publicamente.

A minha oração, como pai e pastor, é que o nosso Senhor Jesus livre os nossos filhos de má companhia, mas, rogo ainda mais insistentemente para que os nossos filhos não se tornem má influência! Suplico que a misericórdia que o nosso Redentor usou conosco, a aplique também nos corações dos nossos filhos, confirmando que eles são herdeiros da Aliança da graça.

22 março 2008

O túmulo está vazio!

Jesus Cristo esteve morto desde a tarde da Sexta-feira até a madrugada do Domingo. Os discípulos testificaram a morte do Mestre (Mc 15:44-45; Jo 19:32-34) e os seus inimigos também (Jo 19:31). Não há registro de que alguma vítima de crucificação tenha conseguido sobreviver tão terrível penalidade. Caso ainda estivesse vivo, a lança do soldado romano seria suficiente para por fim ao seu intenso sofrimento; entretanto, sabemos que do corte saiu "água e sangue" (Jo 15:34). Ele não esteve apenas desmaiado, em coma, ou num estado de catalepsia. Jesus esteve realmente morto e foi sepultado!

No Domingo, o nosso redentor levantou dentre os mortos (Mc 15:44-45; Jo 19:32-43). Ele ressuscitou no mesmo e verdadeiro corpo, mas com novas qualidades espirituais, ou seja, Cristo não apareceu como um espírito desencarnado, ou noutro corpo, mas no mesmo corpo mutilado e sepultado. Entretanto, por que os discípulos não Jesus reconheceram de imediato quando o viram (Lc 24:13-35)? A resposta é simples: o seu corpo ressurreto estava transformado num corpo incorruptível, poderoso, espiritual e glorioso (1 Co 15:42-44). A sua aparência física havia se transformado! O seu aspecto envelhecido por causa do seu sofrimento (Jo 8:57), bem como as marcas da tortura foram transformadas, porque toda a conseqüência do nosso pecado em seu corpo desapareram. As únicas marcas que propositalmente permaneceram após a sua ressurreição foram as marcas dos pregos e da lança para que testemunhassem quem ele realmente era (Lc 24:36-43)!

A ressurreição do nosso redentor assegura-nos maravilhosos benefícios. Ela inaugura uma nova ordem (Cl 1:8), isto é, o seu reino inicia, e agora desfrutamos da sua intercessão e da aplicação dos seus méritos, através do Espírito Santo, de modo que andamos em novidade de vida, não mais escravos do pecado. Jesus é o Senhor dos vivos e dos mortos (Rm 14:9). Pela sua vitória sobre a morte somos regenerados (1 Pe 1:3), recebemos poder para nos tornarmos filhos de Deus (Jo 1:12), nele somos justificados (Rm 4:25), e aguardamos a nossa ressurreição final (1 Co 6:14; 2 Co 4:14). Por isso, "meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil" (1 Co 15:58).

04 março 2008

Teologia e obediência

É lamentável que muitos ainda pensem que o treinamento teológico é algo destinado apenas a um grupo selecto. As nossas escolas dominicais poderiam ser transformadas em centros de treinamento teológico. Os nossos presbíteros poderiam receber um curso teológico para melhor supervisionar a saúde espiritual da Igreja. Gordon J. Spykman declara que “uma dogmática saudável está firmemente arraigada na vida religiosa da fé da comunidade cristã”.[1]

O treinamento teológico também visa à formação de cristãos que servirão com melhor capacitação nas igrejas. A Igreja de Cristo é um corpo composto de membros dotados com habilidades espirituais especiais. Se cada membro desenvolver o seu dom espiritual equipando-se com o mais qualificado conhecimento técnico, é muito provável que servirão melhor. Gordon J. Spykman observa que "a dogmática tem que manter abertas as linhas de comunicação com a igreja institucional na variedade de seus ministérios. A missão da igreja é equipar aos crentes com formas práticas para viverem juntos no mundo de Deus (Ef 4:11-16)."[2]

O Cristianismo não é somente uma religião, é uma cosmovisão, e por este motivo necessita ser entendido no seu todo e vivido coerentemente. Charles Colson afirmar que "o Cristianismo genuíno é mais do que relacionamento com Jesus, tanto quanto se expressa em piedade pessoal, freqüência à igreja, estudo da Bíblia e obras de caridade. É mais do que discipulado, mais do que acreditar em um sistema de doutrinas sobre Deus. O Cristianismo genuíno é uma maneira de ver e compreender toda a realidade. É uma cosmovisão, uma visão de mundo."[3]

Tendo isto em mente, os estudiosos de teologia precisam oferecer respostas e propostas cristãs para todas as áreas da sociedade. Gordon J. Spykman sugere que o esforço teológico "deveria ser moldado por uma estratégia do reino de Deus de tal maneira que possa penetrar o mercado das idéias e a arena das práticas diárias e produzir o impacto reformador do evangelho. A competência de outros eruditos capacita aos dogmáticos a ajudar ao povo de Deus a atuar mais biblicamente em assuntos políticos, econômicos, sociais e educativos."[4]

A Teologia, enquanto uma sistematização fiel da Palavra de Deus, objetiva fortalecer a sua fé. O estudo sistemático das Escrituras deve confirmar o que temos aprendido, restaurar o que temos perdido, reformar o que se tem corrompido, rejeitar o que não foi recebido, e despertar a devoção pela sã doutrina. Os cristãos são chamados por Deus para salvar não apenas a alma das pessoas, mas também as suas mentes. Para isso, os servos do Senhor nunca poderão se esquecer que crer é também pensar!

A integridade produz um poder de influência que todo cristão deve buscar (1 Tm 3:2, 10; Tt 1:6-7). John MacArthur Jr. conclui que “se nós realmente acreditamos que a verdade das Escrituras é objetiva e entendida racionalmente é tanto autoridade quanto incompatível com o erro, visto que a Bíblia é a Palavra singular do Deus vivo – devemos não apenas pregá-la, mas devemos vivê-la também.”[5]

A proclamação da fé Cristã é extraída do bojo teológico que a Igreja carrega consigo. Ela deve pregar e fazer novos discípulos. Mas anunciar o quê? O seu sistema litúrgico? A sua existência histórica? A sua influência social? Não! Ela não é testemunha de si mesma. Ela fala em nome de Cristo, e tendo o Senhor como o centro de sua mensagem. Sempre preparada para dar razão da fé (1 Pe 3:15) que fora entregue de uma vez aos santos (Jd vs.3).

Notas:
[1] Gordon J. Spykman, Teologia Reformacional, pág. 118.
[2] Ibidem.
[3] Charles Colson & Nancy Pearcey, E Agora Como Viveremos?, pág. 33.
[4] Gordon J. Spykman, Teologia Reformacional, pág. 121.
[5] John MacArthur Jr., Princípios para uma cosmovisão bíblica, pág. 71.

19 janeiro 2008

O que Jesus é meu?

O amado da nossa alma não foi um mero mestre da moral ou um dos últimos dos profetas. Se tudo o que Ele fez e disse não for verdade, então somos os mais iludidos homens deste mundo. Entretanto, a graça do nosso Deus tem nos revestido com poder e entendimento para crêr nEle e ver a Sua glória. Ele é o Filho de Deus (Jo 1:1,18; 2 Pe 1:1; Rm 9:5; Tt 2:13; Jo 20:28; Hb 1:8; 1 Jo 5:20). O Senhor Jesus falou da sua comunhão com o Pai (Jo 10:30), da Sua glória junto dEle (Jo 14:8-11; 17:5; Cl 1:15; Hb 1:3). Inclusive Jesus aceitava ser adorado como Deus (Mt 2:11; 14:33;15:25; 28:9,17; Lc 24:51-52; Jo 1:18; 5:23; 9:38; 14:13; 16:23-24; 20:28-29; Ap 1:5-6).

Muito tempo antes dEle nascer as profecias prediziam quem Ele seria e o que faria pelo Seu povo. Ele seria um descendente da tribo de Judá (Gn 49:10; Lc 3:33), concebido numa virgem (Is 7:14; Lc 1:26-27, 30-31), nascido em Belém (Mq 5:2; Lc 2:4-7), fugiria para o Egito (Os 11:1; Mt 2:14-15), por sua causa haveria uma matança de crianças (Jr 31:15; Mt 2:16-18), a sua vinda seria anunciada por um precursor (Ml 3:1; Lc 7:24,27), sofreria a rejeição dos judeus (Is 53:3; Jo 1:11), mas a sua entrada em Jerusalém seria algo triunfal (Zc 9:9; Mc 11:7,9,11), seria traído por 30 moedas de prata (Zc 11:12-13; Mt 26:15; 27:5-7), e morreria crucificado com criminosos Is 53:12; Mc 15:27-28), mas seria honrosamente sepultado com o rico (Is 53:9; Mt 27:57-60), nenhum dos seus ossos seriam quebrados (Sl 34:20; Jo 19:32-33, 36), e com glória ressuscitaria dos mortos ao terceiro dia (Sl 16:10; Mc 16:6-7). Todas as profecias a Seu respeito se cumpriram!

Os seus títulos indicam a Sua glória. No Antigo Testamento Ele foi chamado de Maravilhoso Conselheiro (Is 9:6), Deus Forte (Is 9:6), Pai da Eternidade (Is 9:6), Príncipe da Paz (Is 9:6), Redentor (Is 41:4; Jó 19:25), Santo de Israel (Is 41:14), Servo “sofredor” (Is 52:13-53:12). No Novo Testamento a Sua majestade resplandece como o sol do meio dia em todo a sua força! Jesus que é a "expressa exata do Ser de Deus" (Hb 1:3) é chamado o Salvador (Lc 1:47), Advogado (1 Jo 2:1), o Mediador entre Deus e os homens (1 Tm 2:5), Alfa e Omega (Ap 21:6), o Santo de Deus (Mc 1:24), o Senhor da Glória (1 Co 2:8), o Verbo encarnado (Jo 1:1), o Autor da vida (At 3:15), o último Adão (1 Co 15:45), o primogênito da criação (Cl 1:15), o primogênito da morte (Cl 1:18), o Rei dos reis (Ap 19:16), o Senhor (Fp 2:11), a semente de Abraão (Gl 3:16), o Filho do Homem (Mt 18:11), o Mestre (Mt 19:16), o Filho de Davi (Mc 10:47), o Rei de Israel (Jo 1:49), o Guia (Mt 23:10), Ele é o unigênito de Deus, o Pai (Jo 3:16).

A Escritura também usa a linguagem figurada para descrevê-Lo. Ele é o Pão da Vida (Jo 6:35), a Pedra Angular (Ef 2:20), o Supremo Pastor (1 Pe 5:4), o Bom Pastor (Jo 10:11) e o Grande Pastor (Hb 13:20), mas sacrificialmente Ele é chamado o Cordeiro de Deus (Jo 1:29). A Sua obra o aponta como a Luz do Mundo (Jo 9:5), o Caminho (Jo 14:6), a Verdade ( Jo 14:6), a Vida (Jo 14:6), a Videira (Jo 15:1), a Porta das ovelhas (Jo 10:7), e, Ele mesmo é o Cabeça da Igreja (Ef 1:22-23).

O Senhor Jesus como Deus foi louvado em seus atributos divinos. Ele é descrito como sendo eterno (Jo 1:1; 8:58; 17:5, 24), onipotente (Jo 5:19; Hb 1:3; Ef 1:22; Ap 1:8), onisciente (Jo 2:24-25; 6:64; 16:30; 18:4; 21:17; Mt 9:4; 11:27; Cl 2:3), imutável (Hb 1:12; 13:8), santo (Jo 6:69; 8:29; 2 Co 5:21; 1 Pe 2:22), criador (Jo 1:3, 10; 1 Co 8:6; Cl 1:16), sustentador de todas as coisas (Cl 1:17). O Redentor agiu soberanamente para que o seu senhorio sobre todas as coisas fosse manifesto. Ele perdoou pecados (Mt 9:2; Lc 7:47; Jo 1:29; At 10:43; Cl 1:14; 1 Jo 1:7), e ressuscitou mortos (Jo 5:25; 11:25), pôde executar julgamento (Jo 5:22; At 10:42; 17:31), possuí domínio sobre os demônios (Lc 4:33-35; 8:27-33), bem como realizou milagres (Mc 2:5-12; Jo 2:11; 10:25; Mt 4:23-24; 11:2-6), sendo Ele o Autor da vida (Jo 5:21; 10:17-18; 11:25-44; Lc 8:52-55).

Há ainda alguma dúvida do que Jesus é meu?

09 janeiro 2008

Por que somos presbiterianos? - 10

Cremos no único Deus, que é Senhor da história e do universo, "que faz todas as coisas segundo o conselho da sua vontade" (Ef 1:11). A nossa convicção está em que a finalidade principal da vida humana não é somente o bem-estar, a saúde física, a prosperidade, a felicidade, ou mesmo a salvação do homem, mas, a glória de Deus, o louvor da santidade, justiça, fidelidade, poder, sabedoria, graça, bondade e de todos os Seus atributos. Deus não existe para satisfazer as necessidades do homem, embora Ele o faça por amor de Si mesmo (Ez 20:14). O homem foi criado para o louvor da Sua glória (Rm 11:36; Ef 1:6-14).[1] O Rev. Johannes G. Vos comentando o Catecismo Maior de Westminster observa que "quem pensa em gozar a Deus sem O glorificar corre o risco de supor que Deus existe para o homem, e não o homem para Deus. Enfatizar o gozar a Deus mais do que o glorificar a Deus resultará num tipo de religião falsamente mística ou
emocional".[2]

É certo que ela transcende ao nosso entendimento, mas ela pode ser percebida pela Sua manifestação na criação e pela revelada Palavra da Deus. João Calvino no início de suas Institutas escreve que "a soma total da nossa sabedoria, a que merece o nome de sabedoria verdadeira e certa, abrange estas duas partes: o conhecimento que se pode ter de Deus, e o de nós mesmos. Quanto ao primeiro, deve-se mostrar não somente que há um só Deus, a quem é necessário que todos prestem honra e adorem, mas também que Ele é a fonte de toda verdade, sabedoria, bondade, justiça, juízo, misericórdia, poder e santidade, para que dele aprendamos a ouvir e a esperar todas as coisas. Deve-se, pois, reconhecer, com louvor e ação de graças, que tudo dele procede."[2]

Mas, por que a nossa felicidade depende da glória de Deus? Porque a nossa dignidade e felicidade depende de vivermos sem a insensatez, vícios e destruição que o pecado causa. Somente quando obedecemos a vontade de Deus, segundo as Escrituras, podemos andar aceitáveis em Sua presença e desfrutar dos benefícios das Suas promessas. Aurélio Agostinho em suas Confissões declarou que "Tu o incitas para que sinta prazer em louvar-te; fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em ti".[3]

O soberano Senhor não compartilha a Sua glória com ninguém! O nosso orgulho é uma ofensa gravíssima ao nosso Deus. Não é em vão que Ele denúncia a Sua rejeição aos soberbos (Tg 4:6-10). Somente Ele é o Altíssimo, enquanto o pecador consegue em suas fúteis pretensões ser apenas uma ilusória altivez. Não podemos esquecer de que somos chamados para ser servos do Seu reino, e de que toda a abrangência de nossa vida está a Seu serviço (Rm 11:36).

O profeta Jeremias disse que "assim diz o SENHOR: não se glorie o sábio na sua sabedoria, nem se glorie o forte na sua força; não se glorie o rico nas suas riquezas; mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em entender, e em me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço benevolência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR." (Jr 9:23-24).

Notas:
[1] Breve Catecismo de Westminster, perg./resp. 1
[2] Johannes G. Vos, Catecismo Maior de Westminster Comentado (Editora Os Puritanos), pág. 32
[3] João Calvino, Institutas, (edição estudo de 1541), vol. I, pág. 55
[4] Santo Agostinho, Confissões (Editora Paulus), vol. 10, pág. 19

13 dezembro 2007

Por que somos presbiterianos? - 9

Somente através da obra de Cristo poderemos ser salvos. Não temos nenhum outro mediador pelo qual seja possível acontecer uma reconciliação com Deus, a não ser Jesus Cristo, a segunda pessoa da Trindade (1 Tm 2:5). Ele é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (Jo 1:29). Cremos que a Sua morte expiatória na cruz satisfaz a justiça de Deus e, elimina completamente a culpa de todos aqueles que nEle crêem (Rm 3:24-25), redimindo-os dos seus pecados (Ef 1:7); e, que a Sua humilhação durante o Seu ministério foi perfeitamente justa, santa e obediente à lei de Deus. A Sua obra Lhe confere autoridade para declarar justo todos quantos o Pai Lhe deu (Jo 6:37,39,65). Toda a obra expiatória de Cristo é suficiente para a nossa salvação (Rm 8:1).

O nosso Senhor Jesus se fez um de nós para ser o nosso substituto. Ele é o nosso único representante diante de Deus. A Aliança da Graça estipulava que o Filho viesse ao mundo para cumprir a vontade do Pai, ou seja, que viesse morrer pelos Seus escolhidos (Jo 4:34; 6:38-40; 10:10). A nossa culpa e merecida condenação caiu sobre Ele (Hb 2:10). O Filho de Deus não desceu ao lugar chamado inferno, mas os sofrimentos do inferno se fizeram presentes em Sua alma. O Pai retirou a Sua presença consoladora e derramou sobre Jesus a Sua ira divina punindo o nosso pecado nEle. As nossas iniqüidades estavam sobre o Filho, e a justa ira de Deus veio sobre o nosso pecado na cruz (Hb 2:10). Jesus tornou-se amaldiçoado em nosso lugar sobre o madeiro (2 Co 5:21).

A Confissão de Fé de Westminster declara que "aprouve a Deus em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu Filho Unigênito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o Cabeça e Salvador de sua Igreja, o Herdeiro de todas as coisas e o Juiz do Mundo; e deu-lhe desde toda a eternidade um povo para ser sua semente e para, no tempo devido, ser por ele remido, chamado, justificado, santificado e glorificado" (CFW VIII.1).

A justificação de Cristo sobre nós exige que tenhamos uma vida coerente com a Sua justiça. O apóstolo Pedro declara que “porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (1 Pe 2:21-24).

Este Jesus é pedra rejeitada por vós, os construtores, a qual se tornou a pedra angular. E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos (At 4:11-12).

05 dezembro 2007

Por que somos presbiterianos? - 8

Cremos que a causa da nossa salvação não depende das nossas virtudes pessoais, nem de qualquer esforço que envolva o merecimento conquistado pelas nossas virtudes. O único meio pelo qual o Espírito Santo aplica a salvação ao coração humano é a fé. Entretanto, deve ser lembrado que a é dom de Deus e não uma virtude humana (Rm 4:5; Ef 2:8-9; Fp 1:9). Mas, mesmo que ela fosse uma virtude humana ainda assim seria imperfeita, insuficiente e desmerecedora da graça de Deus. O Breve Catecismo de Westminster define este dom: fé em Jesus Cristo é uma graça salvadora, pela qual o recebemos e confiamos só nele para a salvação, como ele nos é oferecido no Evangelho (BCW perg/resp. 86).

A justificação é pela fé somente nas obras de Cristo. Ela é a causa instrumental da nossa salvação. Nenhum homem pode ser salvo, a não ser que creia na eficácia da expiação realizada por Cristo, confiando exclusivamente nele (Rm 1:17; Tt 3:4-7; 1 Jo 5:1). A justiça de Cristo que é imputada sobre nós nos concede, garante e mantém-nos aceitos na comunhão eterna de Deus.

A fé envolve toda a personalidade do indivíduo. Este dom divino move vivificando salvificamente o entendimento, a vontade e as emoções. Entendemos por fé, não um sentimento vago e infundado, ou uma mera credulidade (Hb 11:1-3); mas, ela é o dom do Espírito Santo, que é a capacidade crêr com um correto conhecimento, com uma firme convicção e confiança na Palavra de Deus que aponta para o senhorio de Cristo. Pela fé o eleito de Deus é convencido da culpa e do pecado, e se arrepende com real tristeza e, estende as mãos vazias para receber de Deus o perdão imerecido, descansando na suficiência da justiça de Cristo (Rm 5:1; Hb 11:6).

A verdadeira fé produz santas e boas obras que evidenciam a salvação e glorificam a Deus. A salvação é pela fé somente, mas a fé que salva nunca está sozinha. A fé salvadora produz amor prático ao próximo, santidade pessoal em obediência à Palavra de Deus. A Escritura Sagrada declara que "pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas" (Ef 2:10).

29 novembro 2007

Por que somos presbiterianos? - 7

Cremos que a salvação do homem não decorre de nenhum tipo de boas obras que venha a realizar, nem de alguma virtude ou mérito pessoal, mas sim do favor imerecido de Deus (Rm 3:20,24, 28; Ef 2:1-10). Em decorrência da Queda, todo ser humano nasce com uma natureza totalmente corrompida, de modo que não pode vir a agradar a Deus, a não ser pela ação soberana e eficaz do Espírito Santo, o único capaz de iluminar corações em trevas e convencer o homem do pecado, da culpa, da graça e da misericórdia de Deus em Cristo Jesus (Rm 3:19,20).

Todo ser humano em seu estado natural é escravo do pecado. O teólogo puritano Stephen Charnock observou que “todo pecado é uma espécie de amaldiçoar a Deus no coração. O homem tenta destruir e banir Deus do coração, não realmente, mas virtualmente; não na intenção consciente de cada iniqüidade, mas na natureza de cada pecado.”[1] A dureza de coração lhe é normal, por que ele está rígido como uma pedra (Ez 36:26-27).

O livre arbítrio perdeu-se com a Queda. A capacidade de agir contrário à própria natureza foi perdida com a escravidão do pecado. No início, Adão sendo santo foi capaz de escolher contrário à sua inclinação natural de perfeita santidade e, decidiu pecar. Tornando-se escravo do pecado, o primeiro homem livremente passou a agir de acordo com a escravidão dos desejos mais fortes da sua alma corrompida pela iniqüidade, e por si mesmo é incapaz de não pecar. Ele é livre, mas a sua liberdade é usada tendenciosamente para pecar de conformidade com os impulsos de sua inclinação para o pecado. Se ele for deixado para si mesmo, ele sempre agirá de acordo com a sua disposição interna, ou seja, naturalmente sempre escolherá pecar (Rm 1: 24-32; 3:9-18; 7:7-25; Gl 5:16-21; Ef 2:1-10).

A causa da nossa salvação é devido a ação da livre e soberana graça do nosso Deus. A Confissão de Fé de Westminster declara que "todos aqueles que Deus predestinou para a vida, e só esses, é ele servido, no tempo por ele determinado e aceito, chamar eficazmente pela sua palavra e pelo seu Espírito, tirando-os por Jesus Cristo daquele estado de pecado e morte em que estão por natureza, e transpondo-os para a graça e salvação. Isto ele o faz, iluminando os seus entendimentos espiritualmente a fim de compreenderem as coisas de Deus para a salvação, tirando-lhes os seus corações de pedra e dando lhes corações de carne, renovando as suas vontades e determinando-as pela sua onipotência para aquilo que é bom e atraindo-os eficazmente a Jesus Cristo, mas de maneira que eles vêm mui livremente, sendo para isso dispostos pela sua graça."[2]

Notas:
[1] Stephen Charnock, The Existence and the Attributes of God (Grand Rapids, Baker Books, 2000), vol. 1, pág. 93
[2] Confissão de Fé de Westminster, X.1

16 novembro 2007

Por que somos presbiterianos? - 6

A Igreja Presbiteriana possuí o seu sistema doutrinário centrado na Escritura Sagrada. Ela se preocupa em andar pautada e regulada pela Bíblia, que é a Palavra de Deus. Desde a Reforma do século 16 foi ensinada a doutrina da Sola Scriptura – ou seja, que a Escritura é a única fonte e regra de autoridade. Isto significa que a base da nossa doutrina, forma de governo, culto e práticas eclesiásticas não está no tradicionalismo, no racionalismo, no subjetivismo, no relativismo, no pragmatismo, ou no pluralismo, mas extraída e fundamentada somente na Escritura Sagrada, por que cremos que ela é a verdade absoluta revelando a vontade de Deus.

Cremos que a Palavra de Deus registrada no Antigo e no Novo Testamento, sendo escrita por autores humanos, foi inspirada por Deus (2 Tm 3:16) garantindo a sua inerrância, autoridade, suficiência e clareza. Absolutas verdades existem na mente de Deus, que através da revelação elas vêm à mente do escritor original, assim na inspiração esta revelação registra-se em Escritura: a Palavra de Deus em palavras humanas. Com a preservação dos manuscritos temos os textos atuais que precisam ser criteriosamente comparados para termos o que foi originalmente escrito pelos autores. Pela tradução obtemos as nossas versões que procuram transmitir fielmente o significado essencial do texto original. Por fim, através da interpretação a verdade chega a mente do leitor representando proposicionalmente a verdade original da mente de Deus.

As Escrituras são a autoridade suprema em que todas as questões doutrinárias e eclesiásticas devem ser decididas (Dt 4:2). Esta doutrina é importantíssima para a purificação da Igreja. Tudo o que nela não se lê, nem por ela se pode provar, não deve ser exigido de pessoa alguma que seja crido como artigo de Fé ou, julgado como exigência ou, necessário para a salvação. Na Bíblia o homem encontra tudo o que precisa saber, e tudo o que necessita fazer a fim de que seja salvo, e viva de modo agradável a Deus, servindo e adorando-O (2 Tm 3:16-17; 1 Jo 4:1; Ap 22:18). Somente a Escritura Sagrada é autoridade absoluta para definir as nossas convicções, porque apenas nela encontramos a verdadeira sabedoria do alto. Ela rege as nossas decisões e molda o nosso comportamento, como também determina a qualidade dos nossos relacionamentos.

07 novembro 2007

Orgulho: um perigo fatal

O orgulho é a disposição de mostrarmos uma condição superior àquilo que realmente somos. Por mais capazes que sejamos, nunca poderemos nos esquecer que Deus nos faz servos. Por isso, no Antigo Testamento a palavra hebraica para orgulho realça a altivez ilusória da pecador, e no Novo Testamento, a palavra grega refere-se ao engano de olhar por cima dos demais, considerando-se insensatamente superior aos outros.

Esta disposição transforma-se em pensamentos, motivações, sentimentos e finalmente concretiza-se em comportamento tolo. É interessante como este pecado é tão comum em todo ser humano, e ao mesmo tempo tão prazeiroso, e tão difícil de ser reconhecido em si mesmo. Mas, é precisamente por causa do próprio orgulho, é que ele se esconde, isso ocorre simplesmente porque somos motivados pelo sentimento de auto-preservação. O orgulho é sujo demais para aparecer manchando a nossa tão ilustre imagem! C.S. Lewis observa que “o orgulho é um câncer espiritual: devora toda possibilidade de amor, de contentamento ou até mesmo de senso comum.”[1]

O resultado final do pecado que ostenta, e que nos ilude com uma pseudo-elevação [altivez] será uma vergonhosa queda. Os efeitos do orgulho são: engano do coração (Jr 49:16); endurecimento da mente para a verdade (Dn 5:20); produção da inimizade (Pv 13:10); leva à auto-destruição (Pv 16:18; 2 Sm 17:23); esgota as energias, porque o esforço de manter o orgulho é demasiado difícil para ostentá-lo de forma permanente (Sl 131). A Palavra de Deus diz que Ele resiste ao soberbo (Tg 4:6).

A cura para o orgulho não está na maturidade obtida com os anos. A Escritura não recomenda que o neófito seja aceito na liderança da igreja para que não corra o perigo de tornar-se soberbo (1 Tm 3:6). Entretanto, a altivez não é vencida pelo acúmulo da experiência ou de conhecimento, mas, somente com o quebrantamento produzido pelo Espírito do Senhor. A Escritura Sagrada nos ordena que devemos nos humilhar na presença do Senhor, e ele nos exaltará (Tg 4:10). Noutro lugar, Tiago disse: “meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que receberemos maior condenação” (Tg 3:1).

Aquele que é identificado como ostentando uma soberba visível deve ser repreendido com amor. O princípio é muito simples: quem não é humilde não pode ser imitador de Cristo (Jo 13:1-11). Não importa quanto tempo de membro de uma igreja local você tenha, se o orgulho é uma característica dominadora em seu caráter, ele está te desqualificado para ser servo dos servos do Senhor.

Notas:
[1] C.S. Lewis, Cristianismo Puro e Simples (São Paulo, Ed. ABU, 1997), 70

25 outubro 2007

Por que somos presbiterianos? - 5

O principal emblema teológico do presbiterianismo não é a sua eclesiologia [doutrina da Igreja], mas a sua teontologia [doutrina de Deus]. A doutrina da soberania é o centro da convicção presbiteriana. Todas as demais doutrinas são diretas ou por implicação resultado deste tema unificador. Héber C. de Campos observa que "o Deus que é pregado em muitos púlpitos e ensinado nas escolas dominicais, e lido em grande parte dos livros evangélicos, não passa de uma adaptação da divindade das Escrituras, uma ficção do sentimentalismo humano. Esse Deus, cuja vontade pode ser resistida, cujos desígnios podem ser frustrados e cujos propósitos podem ser derrotados, não é digno de nossa verdadeira adoração. De fato, esse não é o Deus das Escrituras."[1]

A soberania de Deus não anula a responsabilidade humana. W.E. Roberts de forma quase poética afirma esta verdade, declarando que "quanto mais claramente Deus é compreendido e a sua soberania reconhecida, tanto mais aceitáveis e obrigatórios se tornam os seguintes princípios: o homem é um ser livre, predestinado; a vida reta é um dever perpétuo estabelecido por Deus; a responsabilidade moral do homem foi preordenada pelo Espírito Divino; o juízo de Deus é inevitável e a libertação do castigo e da condenação só é possível mediante Jesus Cristo. A soberania, a lei e a justiça de Deus, em harmonia com a liberdade humana, fazem dos conceitos presbiterianos sobre o dever uma força moral austera e poderosa."[2]

Arminianismo num se aprende..., todo ser humano nasce arminiano! Entender e aceitar o Calvinismo é receber a graça que ofende o nosso orgulho, e repreende a desgraçada pretensão de ser livre [de Deus] e a estupidez de pensar que sou capaz de resistir ao soberano Senhor do universo, numa insensata e inútil crença de que "sou eu quem determina o meu futuro" e não o trino Deus!!! Concluir que o imperfeito, limitado, instável, insensato, confuso, ignorante, inábil, depravado e morto espiritualmente é capaz de frustrar o perfeito, infinito, imutável, sábio, onisciente e soberano Deus, é no mínimo não ter sequer noção de causação. O Arminianismo é uma tolice, se não bastasse ser antibíblico.

Creio que não é ofensivo ao meu Senhor Jesus quem/como deve ser batizado, nem quem/como se governa a igreja local [penso serem assuntos secundários ou periféricos em questão de doutrina, mas não menos importantes para a boa saúde da Igreja], mas entendo que é altamente ofensivo roubar a Sua glória de determinar a administração da Sua graça, bem como cheira blasfêmia dizer que o desgraçado pecador que é merecedor da mais intensa angústia do inferno, pretende ser superior em vontade à Ele.

Notas:
[1] Héber C. de Campos, O Ser de Deus e os seus Atributos (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 1999), p. 351
[2] W.E. Roberts, O Sistema Presbiteriano (São Paulo, Ed. Cultura Cristã, 3ªed., 2003), p. 28

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